A confidencialidade deliberada
… quando a breve luz se apaga,
resta uma eterna noite para dormir.
Caio Valério Catulo (84 a.C. - 54 a.C.)
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António Ramos Rosa e Manuel Madeira (capa da 1ª edição, Ed. Labirinto, 2001) |
Os poetas também morrem. Mas enquanto a breve
luz das suas vidas não se apaga, antes da eterna noite, convocam
interrogações e profecias através da simbiose entre realidade e
palavra poética. António e Manuel.
António Ramos Rosa nasceu em 1924, em
Faro. Em 1962 muda-se para Lisboa, onde foi professor e tradutor, até que se
dedicou inteiramente à poesia. A sua intensa actividade poética, crítica e
ensaística disseminou-se em projectos editoriais como as revistas de poesia
Árvore, Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia (de que foi co-director juntamente
com Casimiro de Brito), bem como em diversos jornais e revistas e distinguido
com vários prémios nacionais e internacionais. A partir de 1980, inicia o
desenho de rostos e outros traços não figurativos, realizando algumas exposições
individuais em galerias portuguesas. Morreu em 2013.
Manuel Madeira nasceu em 1924 em São
Bartolomeu de Messines, mas muito cedo foi viver para Faro e depois para Olhão,
onde esteve até aos vinte e cinco anos de idade. A seguir, deslocou-se para
Lisboa e por lá ficou cerca de quarenta anos. Foi funcionário público, tendo
sido demitido por motivos políticos, preso e torturado pela PIDE. Trabalhou
como técnico de indústria agro-alimentar durante três décadas. Regressou a Olhão.
Colaborou com poesia e ensaio em publicações clandestinas de divulgação
cultural no Algarve, nos anos quarenta e posteriormente em jornais e revistas
literárias do país. Foi co-fundador da revista literária SOL XXI. Está
considerado como um antifascista da Resistência. Faleceu em 2016.
Cartas Poéticas entre António Ramos
Rosa e Manuel Madeira é um livro que não pode ser esquecido. É um livro que
precisa ser estudado, por um lado, para entendermos a grandiosidade do género
poesia epistolar, pouco valorizado hoje em dia e, por outro, para conhecermos
estes dois homens: pessoas, poetas, seres humanos de excelência. Nas cartas que
escreveram um ao outro, António e Manuel foram leitores de si mesmos,
implicados numa atitude testemunhal. Nestas missivas poéticas, deram-se a
conhecer e mostraram o mundo contextualizado nos seus problemas do quotidiano:
lugares da infância e da adolescência, intenções, ideologias partilhadas.
Ideias, visões, sentimentos. Claridades. Ritmos existenciais. Se cada poeta é a
verdade da sua própria poesia, estas cartas-poema prepararam caminhos a outros
poetas que se seguiram. É esse o seu valor intrínseco.
António, o simbólico constante.
Manuel, o guerreiro da transfiguração da
palavra.
António e Manuel escreveram-se durante
muitos anos. Este livro reúne 134 cartas (1ª edição, Editora Labirinto, 2009),
(Edição revista e aumentada, 4Águas Editora, 2014). Um e outro, um com o outro:
o eu e o tu no que “a epistolografia pode exprimir, o que implica
necessariamente a condição intersubjectiva do discurso, o conhecimento da
própria criação, a comunidade e a comunhão dos sujeitos no horizonte da
expressão poética. E o testemunho pressupõe a fidelidade como princípio na
contínua relação transformadora do sujeito com os outros.” (do Prefácio à
edição da 4Águas Editora, por Varela Pires).
Primeira
carta a Manuel Madeira (p.15):
O
que é uma casa, o que é a minha casa
onde
o vento germina ou não germina
com
o odor da humidade da terra?
O
que é estar aqui neste âmbito limitado
meu
querido amigo Manuel,
será
que nele pulsa a reminiscência de aventuras passadas,
a
nostalgia da ingénua adolescência,
será
que ela é uma habitação, uma estância, uma ondulante saudade
de
não se sabe o quê, talvez de um charco
onde
crianças colhíamos fugidios girinos
(…)
Primeira
carta a António Ramos Rosa (p.17):
Como
se uma golfada azul de sol entrasse pelas frinchas
forçasse
os gonzos ferrugentos e abrisse a porta
desta
obscura casa onde guardo as relíquias
de
um passado vivo todavia enevoado
sujeito
como está ao furor das intempéries
às
chuvas outonais aos indomáveis ventos
que
sopram nos invernos da desolação
derrubando
estacas promontórios raízes
-
a tua carta meu querido amigo António
entrou
de rompante com passos de arminho
neste
espaço sombrio onde o bolor invadiu as soturnas paredes
com
teias de aranha suspensas do tecto
iluminou
os desvãos acordou o silêncio
da
voz enternecida que dir-se-ia morta
despertou
o torpor do sono empedernido
e
estilhaçou em pedaços a rigidez da ausência
(…)
Os poetas nunca morrem.
António e Manuel vivem numa casa onde o silêncio acordou.
in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_379
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