O 1º FLIQ - Festival Literário Internacional de Querença - teve lugar no Algarve, a 6 e 7 de agosto de 2016.
Foi uma ideia, um sonho de Luís Guerreiro (1960-2017), o "Engenheiro das Letras".
"Aos que nos dão raízes, sombras ou palavras."
No catálogo do evento, organizado por Patrícia de Jesus Palma, conta-se toda a história do FLIQ: propósitos, actores, apresentações, exposição e, principalmente, uma grande homenagem ao poeta Casimiro de Brito.
Este foi o meu contributo, registado no referido catálogo.
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Adília César, in Catálogo FLIQ 2016 |
OS POETAS QUE ESCREVEM (PARA) O FUTURO
O poeta que escreve para o futuro é
invisível no presente e já vive no futuro. É lá que se situa a sua zona de desconforto.
No corpo e no pensamento dos poetas que transgridem, moram os poemas do futuro.
O caos do desconforto é uma casa sem portas nem janelas. Nos silêncios que
gritam, abrem-se as portas e as janelas que antes não sabíamos que existiam.
O poeta que escreve para o futuro
retorna uma e outra vez ao tempo presente para deixar cair as camadas inúteis e
exibir sem pudor a sua nudez interior, o corpo do poema. Mesmo que esteja
inquieto ou apavorado, caminha sobre as dúvidas da sua existência e as brasas
da consciência do mundo. Sente a tortura da melancolia e das dores dessa
passagem, mas mesmo assim não desiste. Transcende a vulgar realidade poética ao
seu alcance, que parece esculpir-se num bloco de gelo, a derreter à medida que
a mediocridade do poema luta em vão pela sua sobrevivência.
Os poemas dos poetas que escrevem para o futuro
são exactamente o oposto. São como um rio que desagua e congela na consciência
dos homens e aí permanece, assumindo uma geografia emocional e racional, desenhada
num mapa exclusivo daqueles intervenientes – aquele poeta e aquele leitor –
ainda que situados em pontos tão distantes na linha do tempo, como as
extremidades de uma ponte que une dois lados contrários do pensamento, uma
ponte para a salvação do poema.
O poeta que escreve para o futuro procura
continuamente, até onde a vista já não alcança, os limites da sua existência
poética, que vive no seu corpo e no seu pensamento e respira com ele e também respira
por ele. Quando morre, é o verbo do corpo eterno no cosmos da memória. Mas por
enquanto, ainda está aqui, junto de nós, numa circunstância presente da sua
existência poética, a unir-se a outras existências poéticas, outros pontos
luminosos conscientes da sua própria incandescência, a diminuir as distâncias
que os separam.
Os poetas que escrevem para o futuro são
os profetas do mundo e mergulham no escuro para encontrar a claridade.
Adília César
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Luís Guerreiro - Jornal Público de 2 de julho de 2017 |
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Casimiro de Brito, in Algarve Vivo de 12 de março de 2017 |
Poesia de Casimiro de Brito em exposição itinerante:
Artigo de Rui Pires Santos no Algarve Vivo de 12 de março de 2017
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