(…) pessoas que pensam que tudo lhes é devido,
que o mundo existe para lhes prestar vassalagem. (…) Enfim, tudo isto é velho
como o mundo, mas tem dias em que aparece cru.
Anabela Mota Ribeiro
I
Patologia
da arrogância. Esta não
é uma expressão frequente na linguagem comum do dia-a-dia. Mas pensando bem, há
muitas pessoas que sofrem ilusões de grandeza. Esses seres “iluminados” acreditam
que são famosos, ricos, inteligentes; estão convencidos que são superiores aos
outros; esforçam-se por nos subjugarem à sua perfeição, são manipuladores
exímios através de meios persuasivos e magnetizantes. Cuidado, essas pessoas
têm, na verdade, um grande poder – o de sugar a energia alheia.
Do ponto de
vista psicológico, podemos aceitar que alguns destes indivíduos sofrem de
Transtorno da Personalidade Narcisista (TPN), ao sobrevalorizarem as suas
próprias características na importância e singularidade, quando ao mesmo tempo
não aceitam como válido o êxito pessoal ou profissional dos que os rodeiam. Pensam
que tudo está mal e que eles próprios teriam a solução para os problemas da
sociedade. Os arrogantes não admitem a culpa e querem manter as aparências a
todo o custo. Eles são insuportáveis… No Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais – DSM – IV a patologia é caracterizada por sentimentos exagerados de autoimportância,
uma necessidade excessiva de admiração aliada a uma falta de compreensão dos
sentimentos dos outros.
Mas afinal,
seremos todos um pouco doentios, do ponto de vista da auto-estima?
Desejamos
conhecer a nossa importância como indivíduos? Sim.
Necessitamos
de alguma admiração por parte dos outros? Sim.
Falhamos
frequentemente perante os sentimentos alheios? Sim.
Parece que o
maior desafio tem a ver com a pressuposta fronteira entre o aceitável e o
patológico. E acredito que todos ultrapassamos esses limites, pelo menos de vez
em quando…
II
No Jornal Expresso de 8 de Fevereiro de 2020 pode ler-se uma reportagem de Christiana Martins, após o episódio da criação de um index que proíbe a divulgação de clássicos da literatura do Brasil nas escolas públicas do estado de Rondónia:
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"Medo do escuro?" - Jair Bolsonaro |
“O governo do estado de Rondônia, no extremo norte do Brasil,
determinou a recolha de 43 obras literárias por considerá-las ‘conteúdo
inadequado’ para as escolas da rede pública. Entre os livros censuradas estão
clássicos da literatura brasileira de autores como Machado de Assis, Euclides
da Cunha, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Ferreira Gular, ou Rubem Fonseca,
aquele que teve mais títulos excluídos: 19. (…) Também Aurélio Buarque de
Holanda, autor do mais referenciado dicionário brasileiro e primo do autor e
cantor Chico Buarque, tem obras retiradas do ensino público. Mas nem só autores
brasileiros são censurados, também nomes universais como Franz Kafka ou Edgar
Allan Poe foram rejeitados. (…) Rondónia é governado pelo
coronel Marcos Rocha, seguidor da orientação ideológica de Olavo de Carvalho,
considerado o mentor do Presidente Jair Bolsonaro. A ordem para
retirar os livros terá vindo do secretário da Educação, Suamy Vivecananda, que
classificou os livros incluídos na lista como tendo ‘conteúdos inadequados a
crianças e adolescentes’.”
III
Primeiro proíbem os livros,
depois queimam as ideias e… O que se seguirá é uma incógnita porque a patologia
da arrogância é um fenómeno de fácil propagação e nunca será travado. Que havemos
de fazer com tudo isto? Tirar a casca e comer cru? Ou devemos assumir o medo
que temos do escuro, para enfrentarmos o negrume da censura e saltarmos no
vazio metafórico do pensamento e da linguagem, acreditando que temos asas e conseguiremos
voar?
Adília César
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