Sou uma pessoa. Tenho um nome e
uma família. Cumpro as regras. Sou uma cidadã igual a outros cidadãos, peças de
uma grande máquina, células de um organismo universal. Mas na verdade, o que eu
sou não me define a nível individual: sou apenas body count na demografia da contemporaneidade. A minha realidade foi
constantemente adaptada ao plano estruturado do espaço e do tempo onde me
situo, por exigência minha, dos outros, das instituições, do sistema. Um corpo
responsivo às modas e costumes, aos padrões de saúde e de beleza, ao expectável
de acordo com o meu género, idade e condição. Um corpo débil, adequado e
corrigido neste mundo organizado e formatado.
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Pintura de Guilherme Pinto* |
Nasci e cresci numa casa citadina
e o meu corpo foi treinado para viver entre essas paredes rectilíneas,
protegido dos perigos exteriores: das alergias na Primavera, dos escaldões no
Verão, da queda do cabelo no Outono, das pneumonias no Inverno; dos
atropelamentos, dos raptos, dos piropos, das agressões sexuais, dos maus
candidatos a marido; e de outros crimes e flagelos, tendo em conta a eminência
constante dos perigos vulgares e invulgares que assolam as raparigas. Durante a
minha infância, usei a casa como se fosse uma outra barriga de mãe, uma
metáfora da primeira gestação, na qual o cordão umbilical permanece ligado para
sempre. E a casa usou este corpo como fonte metafórica, para se alterar,
ampliar, uniformizar, enquanto vivi através da interpretação dos sinais do meu
corpo com base na metáfora gestacional eterna. O corpo molda-se à casa e a casa
adapta-se ao corpo. A casa alimenta o corpo e o corpo comunica com ela, de modo
visível e invisível. Uma zona mútua de conforto, física e psicológica. Vejo uma
clareza absoluta na decoração da casa (que é como quem diz, no embelezamento da
vida): a harmonia das cores, a limpeza e a eficiência energética, tudo contribui
para que o meu corpo se prolongue, seco, enrugado, perplexo. No espaço e no
tempo. A comunicação entre o corpo e a casa faz-se através de corredores que
ligam as divisões, tornados seguros pelos acessos fechados: as janelas e as
portas com trincos e fechaduras. Ferrolhos e chaves. Cortinas. Se eu me fechar,
tu não poderás entrar. Mas como poderei sair? Se não me permito olhar a
escuridão, como posso ver a luz? Abro e fecho essas divisões da casa de acordo
com os graus de intimidade exigidos pelas tarefas ou acções do meu corpo: a cozinha,
a sala, o escritório, a casa de banho, o quarto… Nas cidades, já quase ninguém
privilegia ou sequer possui quintal, jardim, varanda. O céu e as nuvens estão
ali, mas são adereços inúteis, danos colaterais da nossa civilidade.
O meu corpo sai da casa e entra no
corpo da cidade, onde percorre as artérias que se organizam como se fossem
outros corpos. Circulo numa extensão do corpo – o automóvel – e vejo outros
corpos a deslocarem-se em ramificações desse mesmo sistema circulatório da
cidade, como os autocarros, os comboios, os barcos. Os corpos que circulam são
o sangue que alimenta a cidade. E desloco-me: Loja do Cidadão, Serviços
Municipalizados, Hospitais, Bancos, Supermercados, Companhias de Seguros,
Finanças, Tribunais. Anexos construídos compulsivamente no grande Edifício da
Burocracia. Toda a minha vida é um sistema venoso e arterial entre a casa-corpo
e as instituições-corpos, uma metáfora contínua entre o privado e o público,
entre o individual e o colectivo, com uma calendarização pré-exigida para tudo
e todos. O Estado vigia as minhas acções e define as fronteiras de todas essas
metáforas, onde somos uma grande família portuguesa, através da língua que
falamos e das leis que cumprimos. Os corpos são contados pelo Serviço Nacional
de Estatística: quantos somos? Quantos trabalham? Quantos se reformam? Quantos
cometem crimes? Quantos são pobres? Quantos morrem por abandono e inércia
moral? Somos body count: nas filas de
espera, nas mesas de voto, nas bases de dados. Somos apenas um número estatístico,
uma metáfora matemática da individualidade.
Estes pensamentos sócio-antropológicos
exasperam-me. Está na hora de abrir uma janela para deixar entrar a luz. Quero
escutar o meu coração, separar os batimentos interiores dos ruídos grotescos do
coração doente da cidade. Afinal, é o poder do Amor que me move, o Amor que veio
de longe e agora está a morar comigo. Amo e sou amada. Sou uma Pessoa.
Adília César, in Algarve Informativo Nº 129
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