Só de agora a mágoa[1]
Um barco sem velas
E sem rumo
Singrando um mar
de fumo,
Mas descobrindo
estrelas…
Nisto me resumo.[2]
Cristovam
Pavia
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Cristovam Pavia |
“Epígrafe” é o título dado a este pequeno
poema de Cristovam Pavia. E, todavia, poderia ser um desses arquipélagos de
cinza que o poeta foi visitando para meditar sobre a sua curta vida. De
descoberta em descoberta, ele viu frotas de nuvens, turbilhões de
cores, clarões do crepúsculo. Certamente que o poeta se encontrava
encerrado em si mesmo, respirando com dificuldade, focado na construção da sua
linguagem poética como se esta fosse uma casa com as janelas fechadas por
dentro. Depois foram abertas todas as torneiras/E a casa desceu no
espaço/como uma gota de água. Quem ficou fechado lá dentro? Quem se afogou?
Quem bebeu aquela gota de água universal? O poeta Cristovam Pavia ou o homem de
nome Francisco António Flores Bugalho, nascido em 1933 e falecido em 1968?
Basta de perguntas.
Toda a poesia de Cristovam Pavia é um
aviso. Contudo, se ele poetiza a partir das suas vivências, os seus poemas
devem ser lidos tendo em conta o seu sofrimento emocional, verificando-se
revelações inéditas das suas circunstâncias pessoais. Do poeta para o homem,
portanto. A voz poética, o som que o homem faz ao autodestruir-se.
Ainda era criança e o fogo da poesia já
lhe queimava as mãos, como um ardor acaso demasiado excessivo para o que
então lhe era possível suportar.[3] Aos 13 anos já o rapaz
escrevia e projectava-se em um-outro poético capaz de se abrir a um mundo
dolorido que parecia cercá-lo como uma ilha de angústia. A infância é o paraíso
perdido que ele desenha em traços de epitáfio, não sem antes procurar as
nascentes de água pura, o baptismo da caminhada imbuída de desafios
insuperáveis, demandas inultrapassáveis. Suster o peso da hora. O fim de
qualquer coisa sempre visível e palpável. Profundo. Chamemos-lhe,
pragmaticamente, epitáfio. Mais tarde, ele percebe que o menino que era
não morreu. Pelo contrário, um e outro são o mesmo, confundindo-se um com o
outro nas palavras escritas, grandes e opacas como a ampla solidão, o
imenso silêncio que se instaura na reconciliação de ambos.
Havia
grandes tílias aromáticas…
E
pedrinhas brilhantes, coloridas
Conforme
a luz…
E
havia animais
Com
rotas desconhecidas…
E
folhas estranhas todas diferentes…
E tu estavas lá:
–
Menino
Das
pálpebras tombadas.
Mas nós sabemos que está ali um menino já morto e que o homem caminha para a morte. Mas enquanto esta não chega, o poeta medita e escreve. Abandona-se a si mesmo e escreve consolações para tempos incertos. Deseja alcançar uma vertiginosa vertigem. A certeza: a força austera do comboio que desfaz o menino das pálpebras já tombadas.
[1] Verso do
poema de amor “Pequena canção”, incluído no livro “35+15 poemas”, 2018, Opera
Omnia.
[2] Em
itálico: versos de poemas de Cristovam Pavia.
[3] Do texto “Sobre a poesia de Cristovam Pavia” de José Bento, incluindo na obra Poesia,1982, Moraes Editores.
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Adília César, in https://algarveinformativo.blogspot.com/2023/03/perfil-cristovam-pavia-so-de-agora.html