sábado, 26 de março de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [35] por Adília César

 

Mas esta cortesia, em que havia emoção, provinha sobretudo de que o escritor, há cem anos, dirigia-se particularmente a uma pessoa de saber e de gosto, amiga da eloquência e da tragédia, que ocupava os seus ócios luxuosos a ler, e que se chamava «o Leitor»: e hoje dirige-se esparsamente a uma multidão azafamada e tosca a que se chama «o público».

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)


Cruzeiro Seixas

* 

NAS CIRCUNSTÂNCIAS

atenuantes do poema estão sempre as palavras, como se fossem penitências, feridas agravadas pela insistência do poeta. Quando os poemas se escrevem nos espaços brancos entre as palavras, inscrevem-se numa opacidade ainda confusa. Nesse movimento de contração e de expulsão, saem do pensamento através de um mapa onde não há caminho até à salvação. E a “obra”, que se pretende “edifício da linguagem”, renasce na geografia de um qualquer significado, junto ao paraíso, na fronteira do fascínio poético. Contudo, raramente encontra a porta de entrada. O poema fica ali, sem saber o que fazer. Tantas vezes, apenas uma ruína restará. Que faremos com a decadência criativa?

 

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A PREDISPOSIÇÃO

para ler poesia não é uma implícita condição da pessoa. Esse ser raro, quase mítico, «o Leitor», possui conhecimento e gosto literário que vai muito para além das notificações que recebe no seu smartphone. As redes sociais desfiam um rosário de poemas e aforismos que terminam, literalmente, na Cruz-da-Minha-Paciência. De vez em quando, uma honrosa excepção ilumina o cais quase sempre obscuro onde estão depositados os livros à espera de viajar pelas mentes humanas. Na verdade, nem todos os livros desejam esse destino. Uma vez, um Pequeno Livro de uma Editora de Vão de Escada disse-me que lhe parecia mais decente atribuir-se prémios aos melhores leitores e não aos melhores livros. Perante o meu espanto, o Pequeno Livro da Editora de Vão de Escada ainda admitiu que preferia ser lido por poucos leitores e bons, a muitos e maus.

 

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EU,

que faço parte de uma “multidão azafamada e tosca a que se chama «o público»”, não sei remar no grande barco que nos transporta e corro sérios riscos de naufrágio, apesar dos avisos à navegação contidos nas inabaláveis pilhas de livros que se vão erguendo à minha volta de forma compulsiva, embora não totalmente aleatória. Livros à espera de serem lidos, não por ordem de chegada, mas por nível de interesse pessoal. Cuidado, a quantidade não conduz à qualidade, digo. As palavras são como penitências e saem do pensamento até à salvação, na fronteira do fascínio poético. Contudo, na maior parte das vezes não conseguem lá entrar. Que nome hei-de dar a este país onde já ninguém sabe o que é a literatura?

 

*

TU

não és igual a mim e tens predisposições literárias diferentes das minhas. Tu gostas de romances e eu prefiro os contos. Tu aprecias considerações psicológicas e eu adoro fundamentações filosóficas. Tu deleitas-te com um ebook e eu anseio ter nas mãos um livro-objecto. As palavras são sempre as mesmas, como uma combinação simbólica de desenhos concebidos para fazerem sentido nas nossas cabeças, embora não raras vezes a leitura seja feita com os corações. A cabeça galopa violentamente através das sinapses frenéticas dos seus neurónios, mas o coração bate devagar e equilibra a pressa do trabalho cerebral. Ler, apreciar, usufruir, pensar. Por vezes, escrever. E assim vai rodando este mundo literário desmoronado, tendencioso, tantas vezes distraído. Imagens provisórias, crostas de pó, paredes elevadas em labirinto perpétuo dos que ali viveram, emparedados no silêncio dispensado dos que foram à guerra, os desumanos, os utopistas e os que nada sabiam sobre ideologia. Sobrou o vazio, uma espécie de vida que cresce nas cidades arruinadas quando todos são necessários noutros lugares em construção, esse amplo espaço indigno de desgosto.

 

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A SIMPLICIDADE

não é um conceito tautológico, como uma demarcação da realidade racional e expressiva. Tangível. Registo no diário infinito do destino o que não consigo explicar por palavras minhas. A simplicidade é de uma extrema complexidade, implica resumir a significância de um gesto erudito para nomear a grandiosidade de um símbolo, a ofuscação da estética da existência. Ou apenas o silêncio na respiração de outro silêncio, quando os silêncios são e estão vivos (ser e estar é a questão central) e não perdem a validade no decorrer da experiência poética. Quando a morte da poesia é anunciada, ouvem-se os gritos que carregam a bandeira da liberdade. A primeira inspiração, o último suspiro. A vida ficcionada. A ficção vivida. Pura imitação. Bem sei que há outros templos estéticos, mas a poesia dá-me a ênfase que sempre procurei.

 

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NÓS SOMOS

aquilo que lemos. Esta é uma verdade simples que faz todo o sentido para mim. Temos o direito de ler, não importa o quê (Daniel Pennac), mas cuidado: há maus leitores de bons livros e um mau livro pode estragar um leitor principiante ou mediano. As boas escolhas são fundamentais. E perguntas: “mas o que é uma boa escolha?” Outra verdade em que acredito tem a ver com o facto de um livro poder ser aquilo que o leitor faz dele. Gostar ou não gostar, não é uma questão: este tipo de apreciação não é suficiente nem para o livro nem para o seu autor. É necessária uma coragem inusitada e uma entrega visceral para mergulhar num livro e apreciá-lo despido dos nossos próprios preconceitos. A simplicidade é um gesto erudito para nomear os silêncios da experiência poética.

 

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NÃO POSSO

abandonar estas considerações pessoais sem referir uma das maiores perplexidades do meu quotidiano: parece haver mais escritores do que leitores. Se assim for, a literatura está condenada ao fracasso, apesar dos inúmeros fantasmas que povoam o nosso imaginário literário. Do passado, já não herdamos os velhos hábitos de leitura que nos ensinaram na escola. É importante ensaiar uma certa flexibilidade perante as nossas convicções antigas e ensaiar novas ficções, porventura mais adequadas ao futuro. Ler o quê? Ler como? Ler para quê? E, finalmente, o que é a literatura, o que é a poesia e de que modo poderão fazer parte das nossas vidas? Imagens provisórias e esvaziadas dos ecos. Sobrará o vazio em construção quando a morte da poesia for anunciada e as ruínas desaparecerão no vazio do pensamento. Todas as obras literárias também. E se estas conexões da linguagem já forem consideradas totalmente virtuais, apesar de termos um livro nas mãos? Ah, mas assim a crónica seria outra.


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_332

sábado, 12 de março de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [34] por Adília César


Encontrando aos pés uma pedra, nós não ficamos num tremor de emoção, a interpela-la em violentas estrofes, à espera que uma voz de dentro responda revelando o inefável mistério: homens positivos, as pedras utilizamo-las para levantar mais o nosso muro ou apedrejar mais o nosso semelhante.

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

"Wind", Vladimir Kush (Realismo Metafórico)

*

HÁ UM ROSTO,

em cada casa, que está à espera. Esperar é acreditar na possibilidade de uma ideia. Uma ideia positiva, como um jardim em redor da casa. Um jardim de flores coloridas como se fossem sentimentos do lar. Aquele rosto que espera, por dentro de cada casa, sabe que algo vai começar a bater à porta, vai começar a tocar à campainha. Vai conseguir entrar, à força. O rosto da casa sente o sobressalto. Pressente o espasmo da invasão. Contudo, quem espera nada alcança: é preciso fazer alguma coisa. É preciso iniciar a viagem, pisar as ruínas, invocar um deus qualquer. Enquanto ainda não batem à porta. Enquanto ainda não tocam à campainha. Enquanto ainda não entram à força. O rosto exibe a urgência de olhar o jardim, de regar as raízes dos dias, pela última vez. Agora, é preciso acautelar a vida.

 

*

 

ANTES,

eu era a rainha das flores pequenas e passeava pelos canteiros, sulcando rugas no rosto da casa. Alguém disse que eu estava destinada a escalar a montanha mais alta, descobrir o tesouro mais valioso, sobreviver à tempestade perfeita. Mas nada disso aconteceu. Lentamente, desviei-me dessa rota vitoriosa. A cada passo, a cada olhar, havia uma assombrosa descoberta nas pequenas coisas que se amontoavam em redor da casa: a fragilidade, o toque, a subtileza disso. Pétalas levemente pousadas no chão, subjugadas à minha irresponsável podestade. Um dia, coloquei uma coroa de flores e caminhei pelo mundo, de cabeça erguida. As flores cresceram na minha imaginação e, ao fim de algum tempo, tornou-se difícil caminhar com uma cabeça tão desproporcionada em relação ao corpo, assim ampla e expansiva, como um balão a arder no drama que era agora a minha vida. O corpo, a raiz. Ao mesmo tempo, o manto que me cobria, de tão intensamente humano, dissolvia-se em fios de sangue. Alguém disse que isto se chamava inquietação. A viagem, essa estranha substituta.

 

*

UMA CABEÇA

a arder no drama, vinda de uma voz de dentro. Muitas cabeças a arder no mesmo drama: dúvidas, angústias filosóficas, limitações existenciais. E também medo. Ao longe, há um coro de vozes monocórdicas que me impede de acordar. Quem sou eu, assim derramada sobre o lençol branco e asséptico, nos confins da escura gruta? Quem és tu, minha pequena flor a nascer no meio das pedras? Por entre as sombras, outras sombras: o que vejo não é o que eu queria ver.

 

*

O TEMPO

descaminha a grandeza da minha viagem. O passaporte está em branco. A campainha não pára de tocar. A porta abre-se repentinamente porque era impossível permanecer fechada sobre o seu próprio rosto. A porta abre-se num grito, como se fosse uma garganta estilhaçada. O rosto desfeito ainda quer olhar o jardim, ainda quer regar as raízes dos dias. Ainda quer acautelar aquela vida. Ainda. A casa é agora um lar apenas invocado, uma igreja sem deus. As suas ruínas são as minhas memórias.

 

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A VIAGEM

é uma estranha substituta para a vida. Uma esperança. Um número de telefone. Uma fatia de pão. Um choro. Uma cama improvisada. Um pacote de bolachas. Uma interrupção. Um soldado. Uma garrafa de água. Um vazio. Uma ferida. Um olhar para o que ficou para trás, apenas um. Uma notícia. Outra notícia. Mais uma notícia. E mais outra notícia. Ainda a mesma notícia. Um carrocel. Um discurso incompreensível. Ou então ainda é um sonho. Olhar em frente. Mas.

 

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EIS A PORTA

que eu tanto procurava. Descubro um outro mundo bem diferente daquele que me parecia tão real, tão meu, tão íntimo. Tão estrangeiro. Aqui, neste mundo novo, eu e os outros que me seguem já não somos caminhantes, mas sim o próprio caminho. Sem rosto, sem casa, sem jardim. Somos pedras. Somos um país. Somos outro país. E também somos uma comovente vergonha do espectador que assiste ao noticiário das oito, sentado no seu confortável sofá. Nós – os caminhantes, as pedras – olhamos o teu rosto, vemos a tua casa quando chega a última hora do dia. Estás cansado? Então bebe um chá, apaga a televisão, veste o pijama. Deita a tua consciência. Enquanto ainda não batem à porta. Enquanto ainda não tocam à campainha. Enquanto ainda não entram à força. Que farás daqui para a frente com as raízes dos teus dias?


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_330

sábado, 26 de fevereiro de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [33] por Adília César

Ela [a ideia única] é a companheira espectral da sua vida: surge-lhe de repente de trás das coisas mais singelas, solicitando-lhe a comiseração ou a ira: - e, assim, na ramagem que geme sacudida pela tormenta, ele sente logo as lamentações de uma multidão oprimida, e não pode debruçar-se sobre um berço adormecido, sem que tanta paz lhe recorde as violências que revolvem o Mundo.

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)


©John Wilhelm.ch

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A GUERRA

é sempre uma questão humana global porque habitamos um mundo interdependente. A guerra, a violência, a transgressão. Logo, a guerra está destinada à sua própria condenação moral. Mas será esta ideia “única” assim tão linear? Sim, a guerra é indesejável. Mas e se a guerra contribuir para a paz? Mas.

 

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O PODER

é exercido sobre nós e os outros todos os dias das nossas vidas. Entramos em conflito. A violência define-nos enquanto agentes de socialização próxima e global. Exercemos o poder da violência e sofremos os efeitos do poder exercido pelos outros. Somos agentes da violência, carrascos e também vítimas.

 

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AS TONALIDADES

das guerras a que nos fomos habituando ao longo dos séculos confundem a nossa percepção. A guerra, não sendo um estado normal da sociedade, tem sido a companheira das civilizações ao longo da nossa história. A guerra e a sua consequente violência organizam a ambiência geopolítico-económica que caracteriza as vidas das pessoas. As fronteiras não são só territoriais, são também culturais e éticas. Se a condição humana é bélica, como havemos de lidar com esta contemporaneidade difusa, maléfica, sofrida, comovente? Quem somos e o que andamos aqui a fazer? O que é o Bem e o Mal?

 

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O PACIFISMO

é uma ideia sedutora, mas torna-se ridículo face à monstruosidade do Holocausto, por exemplo. Que face podemos oferecer ao agressor? Nenhuma, na minha opinião. Devemos então considerar que há guerras justas, por constituírem a única estratégia disponível dos agredidos e violentados? Lutar pelo Bem é lutar por tudo o que é caracterizado pelo Mal, indo além de dogmas, religiões, ideologias. Mas.

 

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NÃO É POSSÍVEL

colocar a tirania de um governante no mesmo plano da tolerância dos que dela sofrem as consequências. Não é possível, à distância de 4026,5 km, aceitar a invasão da Ucrânia pela Rússia. Não é ético. Não é possível, pela duração de 42 horas de viagem, implementar um sentimento de indiferença face à lonjura entre os dois países. Lutar pelo Bem, neste caso, é defender o direito e a legitimidade de um país não ser invadido por outro, é um imperativo. Lutar em nome do Bem é entrar em guerra ao lado do povo sofredor. Mas e se a guerra for apenas um jogo de funerais de ambos os lados da cerca política? Quem sai vencedor? Apesar do fogo abrasador das bombas, a guerra é sempre gelada.

 

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A HISTERIA

instalou-se. Hoje, há uma cerca política onde os povos de ambos os lados se vão barricando como podem: ideias totalitárias, brinquedos mortais, tiranias, filosofias sem bandeira. E ainda medo. Esses povos de ambos os lados compartilham a mesma biologia. São homens, mulheres, crianças, com instinto de sobrevivência. Fazem parte de uma família. Querem ter um papel activo na sociedade e dão o seu contributo na escola, no trabalho, na arte, no desporto, na cultura. Em suma, vivem as suas vidas. Desejam ser felizes. À solta na minha cabeça, com todos os meus sentidos povoados pelas notícias instantâneas que me chegam sobre a guerra, surge uma pergunta que expressa a minha sensível indignação: será que os russos também amam os seus filhos?

Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_328

sábado, 12 de fevereiro de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [32] por Adília César

 

Teve por isso de construir outra linguagem que pudesse traduzir todo o homem, toda a Natureza, nos seus mais adversos extremos, desde o bestial ao divino: tão fina, tão delicada e transparente, que nela pudesse transmitir-se, sem se evaporar, o aroma de uma simples flor silvestre; tão forte e resplandecente que, através dela, ganhassem brilho e força o diamante e o ouro; tão dúctil, penetrante, transcendente que pudesse modelar o invisível e dizer o indizível.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

“Fuchsia,” 1938, raio x de flor, por Dr. L. Dain Tasker

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DECOMPOR

uma paisagem em sons breves. A vida. Ver a paisagem nos chilreios das aves, nos silvos das serpentes, nos cascos das bestas galopantes. Perseguir o paraíso como mentira veloz, à frente do tempo. Escrevo. Decomponho palavras, separo-as das suas sombras. Corro atrás do tempo para que a última hora não me alcance. As palavras agonizam, deitam-se sobre as esferas do movimento da terra. Construo paisagens que se adivinham no ângulo do voo. Subitamente, uma maçã cai sobre a minha cabeça. O tempo extingue-se no instante da epifania.

 

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ALGUÉM

diz um verso de morte lenta enquanto as nuvens organizam o alimento do espírito em ponto pé de flor. O sentido do discurso é semelhante a um acontecimento clássico, mas qualquer coisa parece fora do lugar e os verticilos florais tombam com o peso dessas memórias tão antigas. São gotas de chuva ou lágrimas? Não sei responder, por tamanha ser a imensidão da tragédia. A mulher reflectida conduz-me através do espelho do mundo, mas há uma agulha muito fina e impiedosa que me prende ao cenário humano de onde nunca mais consigo sair. Quem és tu, ó mulher reflectida? Talvez não sejas mais do que uma criança, assim deturpada, assim incómoda na tua nobreza, apesar da linha de sangue que escorre do coração, e vai manchando o vestido branco, e vai indicando um caminho possível para o amor que nos inunda de luz. E.

 

*

TU

vinhas de um modo urgente de pousar telegramas sobre os móveis e mantinhas-te encerrada na casa de vidro com as árvores de papel em redor, em chamas. E, todavia, a clausura voluntária soava a falso, fria como a neve. Não tenhas medo, esses súbitos são as páginas da tua vida por descobrir – digo neste silêncio maternal, quando sabemos que tudo irá recomeçar. Nada mais existe além da superfície lisa da pele da casa, nada mais existe além do rio de sangue que inunda a tua cabeça. Coragem, procura a serenidade disso. O sonho lateja, forte como um diamante. Resplandecente como ouro, deita-se sobre a página vazia que espera contigo a possibilidade da escrita. Agora, escrevo para poder correr à frente do tempo, escrevo para que o tempo não me alcance. Falo comigo mesma, do alto desta solidão de escada íngreme, quase a cair. É este o meu testamento. É esta a minha imortalidade. É este o meu desafio: descer todos os degraus sem nunca os ter subido. A flor silvestre como deus da natureza conhece a linguagem da infinitude, por ser tão efémera, por ser a totalidade da perfeição aprisionada naquele perfume, naquele peso de um deus das pequenas coisas. Levo-te comigo e ordeno-te que também escrevas. E, todavia, tu não queres ir: queres ficar ali, a sangrar, enquanto povoas os socalcos das nuvens com os tons frios que consegues imaginar. Gostas do tormento da solidão, do equilíbrio entre margens tão distantes como o sol e a terra. E.

 

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SE EU

te ensinar tudo o que sei, poderás perdoar-me, à distância de um século, à distância de um milénio? E depois irei embora para aquele longe de onde já não possa voltar atrás. Repara, esta escrita ainda não é linguagem, é apenas um processo doloroso de cair nas ravinas do pensamento. Repetes tantas vezes as mesmas palavras, tu, mulher reflectida, tu, percepção inacabada que não entendes o idioma que acabaste de inventar. Tu, que não és capaz de entender a flor no espelho. Tu, que partes o espelho para ficares em silêncio eterno. Basta! A paisagem escurece com as sombras das palavras e repete comigo: basta!

 

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ASSIM

será. De sombra em sombra, outras palavras estarão sujeitas a escrutínio. Seremos assolados por um novo caos, porventura mais meritório do que o que foi, entretanto, extinto. Outros diamantes, outros ouros, outras flores silvestres, outros pesos no peito apertando o coração: por exemplo, tu, a mulher reflectida num espelho mais inteiro e progenitor. A vida sob renovada forma, depois de abandonarmos tudo o que nos foi dado, tudo o que se perdeu. Será que Deus nos vai perdoar?


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_326

sábado, 29 de janeiro de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [31] por Adília César

 

Esta expressão, «a leitura», há cem anos, sugeria logo a imagem de uma livraria silenciosa, com bustos de Platão e de Séneca, uma ampla poltrona almofadada, uma janela aberta sobre os aromas de um jardim: e neste retiro austero de paz estudiosa, um homem fino, erudito, saboreando linha a linha o seu livro, num recolhimento quase amoroso. A ideia de leitura, hoje, lembra apenas uma turba folheando páginas à pressa, no rumor de uma praça.

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma) 


Nicolas de Staël - Paysage Méditerranèen, 1954

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HÁ MAIS DE TRINTA ANOS

assisti a uma peça de teatro com um título inquietante, de tão contraditório: MÁSCARAS E MÁS CARAS. Já não recordo o enredo da peça, mas ficou na minha memória a perturbação de não conseguir decifrar, ao longo da vida, as máscaras alheias, apesar de inúmeras tentativas. Pela mesma razão, resisti durante muito tempo aderir às redes sociais, ao perceber que a rede é uma colecção de más caras, salvo honrosas e relevantes excepções. Aqui, no "livro dos rostos" (ou deveria chamar-se o "livro das máscaras"?), a discrição é qualidade ou defeito? Rede, teia, embaraço circunstancial.

 

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ENSAIAR

ensaiar ensaiar. Parece um eco. O verbo é acção repetida, repisada, com vista à minimização dos erros de uma qualquer acção. A noiva ensaia os passos de dança para inaugurar o baile no dia do seu casamento. A criança ensaia a lengalenga para apresentar à família na festa da escola. O poeta ensaia a criação de versos na procura do poema e, em dada altura do processo criativo, procura o título perfeito para o seu livro – infelizmente, nem sempre consegue.

 

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TENTAR

fará sempre parte de todas as facetas das nossas vidas. Não convém, no entanto, confundir “tentar” com “experimentar”, pelo menos no sentido de se ter muitas “experiências de vida”, tendo em conta a tentação universal das pessoas de combaterem dias entediantes. Já as experiências laboratoriais são, efectivamente, acções de tentativa e erro, até que os cientistas atinjam os seus objectivos ou consigam, pelo menos, chegar a algumas conclusões dignas de serem publicadas em revistas da especialidade. Ensaiar, portanto, é tentar acertar os passos que damos em qualquer detalhe do quotidiano, seja uma receita de culinária, uma pega de croché, uma aula, um poema. Ou um título de um livro.

 

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VIVER

é uma sucessão de tentativas e erros. Estamos sempre a falhar, mas nem sempre aprendemos com os nossos percalços. Tantas vezes é impossível reparar o erro cometido ou tão-pouco repetir a acção anterior (as variáveis, tal como o nome indica, variam ao menor desvio).  Com a leitura acontece o mesmo fenómeno. Se o livro começa pela capa e, principalmente, pelo título, que pistas devo procurar para não errar o alvo? A subtileza de uma metáfora? A violência de uma explícita denúncia? A confortável sensação de uma palavra requintada? Posso, de vez em quando, ficar fascinada com a loucura do léxico alheio, mas nunca cedo à chantagem da lapalissada.

 

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É DIFÍCIL

resistir à pomposidade de uma “Ode”: aquele “O” está a gritar, logo, o livro parece conter um texto importante, inequívoco, promissor do ponto de vista da estética literária. É preciso ouvir o texto, portanto. E seguindo-se o adjectivo “Triumphal”, escrito com o clássico “ph”, acrescentam-se camadas de significação apelativas que vêm da origem dos tempos e da linguagem, tão estimulantes para a curiosidade humana. Mas o problema está prestes a rebentar-me na cara: o poeta escreveu uma “Ode Triumphal” a quê? Ah… isso, essa explícita banalidade contemporânea. Ora se um título é quase tudo para cativar um leitor, deixo um recado: caro poeta, não me dês “quase tudo” esparramado na capa, porque “quase tudo pode ser demais” e o teu livro perde, consequentemente, “quase tudo”. Resta um mau título na capa de um livro que eu não tenho vontade de ler. Menos é mais, entendes?

 

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ENTÃO,

dir-me-ás que eu não tenho nada a ver com esse assunto que a ti diz respeito, e que os títulos dos livros apenas denunciam o tema principal, ou seja, o que interessa nesta questão, que para muitos parece ser uma não-questão, é ler a obra apresentada sob aquele título, e não uma análise filosófica e transcendente sobre as palavras que sintetizam o enquadramento do assunto poético. Certo. No entanto, o livro, ao ser publicado, torna-se público e eu tenho o direito de me manifestar, uma vez que a mim se destina, como hipótese de leitura pessoal: não é para esse fim que os autores escrevem livros e os editores os publicam? E, todavia, não existe a partir de um mau título a imortal serenidade que instigue à leitura, existe apenas um mau título. E ocorre-me uma ideia perigosa: diz-me que título dás ao teu livro e dir-te-ei quem és.

 

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AS PALAVRAS

não têm gaiolas que as prendam. Têm asas. As palavras são livres, povoam as nossas cabeças num arremesso contínuo, em estreita ligação com os estados emocionais, as inquietações, os anseios. Tudo isso nos pertence numa intimidade difícil de controlar. A minha intimidade, as minhas palavras. Eu sou a minha intimidade, sou as minhas palavras. Tu és a tua intimidade, és as tuas palavras. Às vezes, existe uma sintonia rara. E volto ao mistério: as palavras também têm máscaras ou, por vezes, possuem armadilhas de leitura que apanham os leitores incautos na teia da ignorância. A ingenuidade leitora também é uma forma passiva de controlo de massas. Afinal, o que é a literatura? Uma abertura do espírito ou uma castração do pensamento? Contudo, tendo plena consciência do perigo a que me exponho, insisto na tentativa de manter as fronteiras das minhas percepções em amável e tolerante permissividade: e se a má cara desse título esconde uma visão genial? Ah, mas assim a crónica seria outra.


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_324

sábado, 15 de janeiro de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [30] por Adília César

O embarque fez-se com a confusão habitual, complicada com os embaraços de um mar agitado: os barcos iam cheios de gente, uns de pé, outros sentados na borda, roçando pela água, outros gravemente equilibrados sobre a acumulação pitoresca das bagagens: ria-se, fulminava-se a organização e a polícia das festas, gritava-se um pouco quando os barcos pesados oscilavam mais inquietadoramente.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

"Adoro-te" - Fotografia de Adília César, janeiro 2022, Faro

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A IDEIA PRINCIPAL

navega no mar do pensamento e a sua sobrevivência depende do clima: períodos de sol com momentos de felicidade extrema; existência de nuvens suaves com abertura do coração a surpresas; céu muito nublado com possibilidade de choros durante a noite; aguaceiros e períodos de espírito vagamente inquietos; rajadas de vento forte com existência de silêncios; mente com poucas abertas e ciclos contínuos de esquecimento; eclipse total. A meteorologia psicológica muda a cada dia através de ciclos de intermitências emocionais registados em gráficos incompreensíveis. Desengane-se quem julga que há um mapa para o percurso mental.

 

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O CAMINHO

não se faz apenas caminhando, mas também na análise da descoberta de cada passo. E parte-se cada pedra em que tropeçamos, para construir alguma coisa que valha a pena. Erguem-se canteiros de flores, muros, edifícios ou uma ponte bem sólida, a minha construção preferida, por ser tão complexa, por denunciar uma utilidade metafórica. Por vezes, não é possível ultrapassar o obstáculo e é preciso voltar atrás, mesmo que já tenhamos chegado longe. Caminho pela cidade. Aqui não há pontes, apenas pressinto passos em falso. Sou obrigada a percorrer uma distância considerável porque não há lugar para estacionar o carro, a não ser ali, naquela praceta escondida e longe de tudo. Procuro uma esplanada minimamente apresentável e convidativa para tomar um café. O sol de inverno é morno, contagia-me com a sua alegria amena. “Eu caminho este caminho pelo caminho”: “caminho” é verbo, substantivo e também advérbio de lugar, o que me deixa divertida ao estabelecer conexões mentais meramente recreativas. De repente, depois de repetir a mesma palavra tantas vezes – “caminho” –, ela deixa de ter significado e torna-se desconhecida na minha paisagem lexical. Sorrio: hoje é dia de inclinar a cabeça para um lado mais infantil. Apetece-me correr, mas tal não é possível porque estou de salto alto e uso um chapéu de feltro; entre os dois adereços, um vestido justo e uma capa a condizer. Ao contornar um contentor do lixo, vejo aquilo.

 

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AQUILO

parece ser uma oferenda destinada a um “puto” qualquer. Exibe uma legenda explícita, negra sobre o fundo branco, inscrita no plano sentimental da pessoa que a fez com as suas próprias mãos e a ofereceu a outra pessoa que, por certo, fará parte da sua colecção especial de afectos – o “puto”. Há outras palavras pintadas em linhas estratégicas do plano bidimensional disponível, mas não consigo decifrá-las. Contudo, à primeira vista e tendo em atenção o local onde o objecto se encontra – junto do contentor do lixo – a dádiva não foi muito bem acolhida pelo destinatário, o “puto”. Quem será o “puto”? Alguém insensível, creio.

 

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O LABIRINTO

arquitectado pelos pensamentos é sempre sentimental. As circunstâncias que impelem ao acto e, em consequência dele, comovem ou não o outro, são sempre emocionais. Mas a razão estabelece-se de forma tortuosa e nem sempre o resultado é o esperado. O emissor “adora” o “puto”, e essa adoração surpreende pelas formas, cores e tempo destinados à criação intencional, única, irrepetível e intransmissível de uma tela decorada com desvelo. Contudo, o outro, o “puto”, nem por isso fica surpreendido, e dá à mensagem um destino cruel, apesar dos “Mil Parabéns”. Quantas dimensões humanas tem o plano dimensional da tela? É possível que um objecto carregue um peso demasiadamente humano? Até eu, que não conheço nem quem dá nem quem recebe, vejo o sentimento de desprezo, ali, deitado no chão: tem forma e cor bem definidas (embora carregadas de sombras). O milagre da borboleta sobre a flor não ilumina aquele transtorno.

 

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É PRECISO

acalmar o mar, varrer as misérias humanas e as boas intenções que não cumprem o seu papel. É preciso estar mais atento às necessidades dos outros. Os inúmeros objectos que eu compro, os presentes que eu ofereço, servem de consolo a quem? A mim ou a ti? Acumulamos coisas, especulações e desejos na bagagem festiva e embarcamos na vida como se não houvesse amanhã. Mas dezembro já ficou lá para trás e neste tempo de rescaldo do último Natal, já prevejo novas inquietações no planeamento do próximo.

 

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TIRO A FOTOGRAFIA

daquela visão algo obsessiva que parece chamar por mim e imediatamente tomo a decisão de escrever estas notas contemporâneas. O impulso inspirador acontece-me, de vez em quando. A representação fotográfica da tela sopra-me uma história ao ouvido que parece plausível, dadas as patéticas circunstâncias. O protagonismo é dado ao destino das palavras “adoro-te, puto”. Sim, “puto”, eu também te adoro! Embarquemos neste novo ano com amor que, não bastando por si só, dá uma preciosa ajuda para acalmar as inquietações da vida. Cuidemos do futuro, com serenidade e alguma urgência. Ou seja, sem reticências nem pontos de interrogação.

 

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DE REPENTE,

ocorre-me uma ideia estonteante: e se o “puto” nunca tivesse recebido a tela? E se quem a elaborou não lhe deu o devido valor e preferiu largá-la no lixo, obstruindo o caminho lógico da intenção-acto-consequência-desalento? Ah, assim o “puto” nunca saberia que era “adorado”. Ah, mas assim a crónica seria outra.


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_322

sábado, 1 de janeiro de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [29] por Adília César

Tão profusa, e complicada, e tumultuária, e rápida se tem tornado a vida moderna que, se os seus factos dominantes não fossem flagrantemente apanhados em imagens concretas, e fixados em resumos límpidos, nós teríamos sempre a aflitiva sensação de irmos levados num confuso e pardacento redemoinho de ruído e poeira.


Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

"Dreams" - Arte fotográfica digital de Robert Jahns

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EU NUNCA

estive realmente aqui. Viajo no tempo, observo o que me chama a atenção, mas não permaneço por muito tempo num lugar onde sou invisível. Depois esqueço, literalmente. A memória habita os meandros mais improváveis e dissimulados. A inquietação amplia os limites do eco reverberado até ao infinito. Eco. Eco. Eco. Tudo é ruído, tudo se transforma em poeira adiada para o futuro. E, e, e, e… há sempre alguém que acrescenta mais qualquer coisa ao que foi dito e redito. É um castigo para a civilização, esta inutilidade de tantas palavras que são ditas e reditas. Que fazer com os discursos repetidos do passado que infectam o presente?

 

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O CAMINHO

a subir nem sempre tem o caminho a descer. Com alguma fantasia especulativa é possível, facilmente, construir um sistema filosófico que fique por ali a espreguiçar sobre o senso comum das pessoas. É possível e… tentador. Veja-se, por exemplo, a proliferação de lamuriantes aforismos que povoam as redes sociais e que se propagam como um vírus de vestimenta vistosa, mas que, na verdade, são completamente inúteis e até contraproducentes. Há alguma máscara que nos proteja de tal demagogia? Este som de não dizer nada…

 

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HÁ PALAVRAS

que deviam deixar de existir, como “talvez” ou “vice-versa”, porque não servem para nada. Felizmente, também há palavras que parecem usar coroas nas suas cabeças, como “não” e “sim”, porque quando são ditas fazem toda a diferença. Há palavras que deviam ser inventadas, como “auaá”, perfeitas para utilização em espelho (“áaua”, estão a ver?) porque poderão servir para quase tudo, até para entender o significado profundo da vida: olhar para o espelho e ver por dentro de nós, estão a perceber? Não? Por agora, ficamos assim. Na verdade, a minha tese tem uma importância relativa.

 

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NAVEGO

na rede social e deparo-me com… bem, não vou descrever o indescritível. Quer dizer, tenho um discurso ensaiado com as adequadas palavras descritoras, mas não tenho a certeza se terão o poder de contrariar o imenso tédio que, entretanto, me invadiu. Porque me permiti entrar no palácio do invisitável? O dia ficou arruinado, digo.

 

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PERMITE-TE DISCORDAR,

diz a mãe. Escuto-a com atenção e dou-me conta de que o seu sistema filosófico se construiu tendo como alicerces os seus próprios sonhos, martírios e contemplações pensativas. As paredes da casa cada vez mais apertadas em redor da mãe. Permite-te discordar, insiste ela, ao deparar-se com o meu silêncio. Na crítica, “o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança”! Lembras-te daquela canção – “Pedra Filosofal”? Lembro-me muito bem: tem letra de António Gedeão e música de Manuel Freire. A canção, no seu todo, constitui-se como um sistema filosófico complexo, embora entendido pelas pessoas simples. Inesquecível. Pura. Intemporal. Sou invadida por uma espécie de felicidade estética, ao trautear a canção. Mas creio que a mãe está confusa, pois a canção fala do sonho e não da crítica… Ó filha, francamente, então os teus sonhos são iguais aos meus?! “Permite-te discordar”, ou seja, sonha o que nunca ninguém sonhou antes. Janeiro é o tempo dos sonhos novos. Não há dias arruinados! Fica atenta: chegou um ano novo, um mês novo, um dia novo. Permite-te discordar, critica, constrói um pensamento só teu. Esse é o teu contributo, é a tua pedra filosofal. Escreve e lê-me o que escreves.

 

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NÃO SEI

se conseguirei libertar-me deste “pardacento redemoinho” enquanto procuro, incessantemente, as “imagens concretas” de que preciso para não me deixar levar para alguma parte obscura de mim mesma, aquela pele de alma abismal, aquela longínqua face do pensamento amordaçado, anestesiado. O meu entusiasmo é, portanto, comedido. Anseio pelo “resumo límpido” dos factos da vida, anseio pela pessoa verdadeira que sou e que apenas se intui. Anseio pelo som de dizer qualquer coisa fundamental, a utopia da vertigem criativa, a enumeração exaustiva dos contrafactuais da existência humana. Ano Novo, discurso velho. E se?...


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_321