sábado, 23 de abril de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [37] por Adília César

 

Mas um alto espírito poético que, num perpétuo arranque, quer penetrar para além do mensurável e do tangível, decifrar a pedra e tocar no segredo das coisas – se não produz verdades que a ciência possa registar, sobe, mais que nenhum outro espírito, até às proximidades desse ideal a que nós damos, por convenção, o nome tradicional e teológico de «Deus».

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

Silvina e Adília

*

QUANDO EU NASCI

partiram-se todos os cristais da casa. Eu fui a transparência que desaguou da maré do ventre. A mulher principal carregava o lar com a expectativa do milagre, orando, de coração ao alto. Essa transparência fragmentada chamava-se «Deus», disse a minha mãe, naquele preciso momento em que nos olhámos por dentro uma da outra. A primeira palavra aprendida exibia um rosto de liquidez espiritual, uma arquitectura sem alicerces. Vi bem como a mãe também era frágil, de esperanças finas como a verdade e espessas como as dúvidas. A verdade sorria e as dúvidas desmoronavam-se, para mim e para ela. Sei que o meu princípio foi o fim de qualquer coisa que tinha o meu nome. Adília.

 

*

A CRIANÇA

não chorava. Parecia atenta, os olhos abertos como pedras vivas, arregalados em direcção ao tecto pejado de sentimentos novos. O pai disse que estava tudo bem e arrumou os instrumentos de coordenação do acto de nascer. Isto foi o que percebi, enquanto voava pelo quarto com as asas emprestadas pela sensação incómoda de nascer. Abrir, fechar e depois? Finalmente, chorar.

 

*

ABRIL

é um mês não categorizável no calendário do clima e do tempo psicológico. Está confuso. Sol, chuva, vento, e saudades da menina que eu fui. As memórias regridem àquele dia, sem esforço de manipulação dos acontecimentos. Os pedacinhos de cristal enchem o ninho, encheram todos os ninhos que surgiram depois. São quase belos na sua possibilidade de infligir dor e melancolia. Refracta-se a luz, comprova-se o método científico da experiência e canta-se a mesma canção de embalar. O cálice reconstrói-se e assume-se inteiro, sem marcas de tragédia.

 

*

É A MÃE

que canta. O poema engrandece a melodia. A mãe tem a voz de um anjo que antes de ser anjo era uma cotovia. O rouxinol cala-se e espera que a alucinação maternal tenha um final feliz, como nos contos de fadas. Era uma vez que, muitas vezes, se repete na misteriosa missiva, quase uma oração. O primeiro poema que a criança escuta tem a forma dos silêncios que se escondem nas pausas da voz. O que a mãe diz à criança é importante, mas o que ela cala é ainda mais verdadeiro. A criança escuta e acredita. Está tudo bem.

 

*

A VIDA

passa por mim, deixando sulcos nos caminhos do rosto. As pedras desbastam-se pela inércia do tempo. A idade é um lugar de onde não existe evasão e faz o seu trabalho a partir de dentro. Vê-se por fora porque há um labor do espírito que ultrapassa as fronteiras da pele e depois pára para descansar. É um peso que se chama "incerto futuro" nas folhas rasgadas de um calendário perpétuo e sempre provisório. Não posso pensar sobre o porvir porque ainda não sei o que significa a duração de cada dia. Mas sinto a pressão no peito, uma mão enroscada e interior a querer segurar o coração ainda vivo, fechado na caixa de veludo que me foi oferecida quando eu nasci. Sinto um cordão umbilical ligado a mim mesma, quase separado da minha velha mãe, como uma pequena agonia por não saber se conseguirei escrever a última página do manuscrito da minha vida ou se alguém a escreverá por mim. Um ponto sem retorno neste dia em que as delicadas flores de cera se derretem em câmara lenta sobre a minha cabeça e lentamente me vão enterrando. Uma pequena-grande tragédia, portanto. Apenas um instante e quebram-se todos os espelhos onde tantas vezes me vi: uma menina de olhos abertos como pedras vivas: uma menina de mãos dadas com os monstros que estão neste caminho onde inevitavelmente se vai construindo uma ponte para o outro lado, quando os olhos se fecharem.

 

*

AMOR E CONTEMPLAÇÃO

é o que resta debaixo de um tecto de vento e glória, situado longe das rotas de colisão. A casa da mãe, ainda a mesma casa. Os teus olhos maternais conduzem o meu escuro. Em silêncio, aceitas o que te dou como se não houvesse amanhã. Ainda somos mãe e filha no amor e na contemplação. Mas deixa cair as palavras, eu guardarei as que fazem sentido para te declamar um poema de cristal. Já nasceu um novo dia, igual ao primeiro dia em que fomos tu e eu. Ainda somos nós, ainda estamos aqui de corações ao alto. De todas as dúvidas sobressai a verdade total: nós somos o nosso segredo nesta linha de escrita.


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_336

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [37] por Adília César

Mas um alto espírito poético que, num perpétuo arranque, quer penetrar para além do mensurável e do tangível, decifrar a pedra e tocar no segredo das coisas – se não produz verdades que a ciência possa registar, sobe, mais que nenhum outro espírito, até às proximidades desse ideal a que nós damos, por convenção, o nome tradicional e teológico de «Deus».

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)



"Mãe e Filho", Gustav Klimt

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QUANDO EU NASCI

partiram-se todos os cristais da casa. Eu fui a transparência que desaguou da maré do ventre. A mulher principal carregava o lar com a expectativa do milagre, orando, de coração ao alto. Essa transparência fragmentada chamava-se «Deus», disse a minha mãe, naquele preciso momento em que nos olhámos por dentro uma da outra. A primeira palavra aprendida exibia um rosto de liquidez espiritual, uma arquitectura sem alicerces. Vi bem como a mãe também era frágil, de esperanças finas como a verdade e espessas como as dúvidas. A verdade sorria e as dúvidas desmoronavam-se, para mim e para ela. Sei que o meu princípio foi o fim de qualquer coisa que tinha o meu nome. Adília.

 

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A CRIANÇA

não chorava. Parecia atenta, os olhos abertos como pedras vivas, arregalados em direcção ao tecto pejado de sentimentos novos. O pai disse que estava tudo bem e arrumou os instrumentos de coordenação do acto de nascer. Isto foi o que percebi, enquanto voava pelo quarto com as asas emprestadas pela sensação incómoda de nascer. Abrir, fechar e depois? Finalmente, chorar.

 

*

ABRIL

é um mês não categorizável no calendário do clima e do tempo psicológico. Está confuso. Sol, chuva, vento, e saudades da menina que eu fui. As memórias regridem àquele dia, sem esforço de manipulação dos acontecimentos. Os pedacinhos de cristal enchem o ninho, encheram todos os ninhos que surgiram depois. São quase belos na sua possibilidade de infligir dor e melancolia. Refracta-se a luz, comprova-se o método científico da experiência e canta-se a mesma canção de embalar. O cálice reconstrói-se e assume-se inteiro, sem marcas de tragédia.

 

*

É A MÃE

que canta. O poema engrandece a melodia. A mãe tem a voz de um anjo que antes de ser anjo era uma cotovia. O rouxinol cala-se e espera que a alucinação maternal tenha um final feliz, como nos contos de fadas. Era uma vez que, muitas vezes, se repete na misteriosa missiva, quase uma oração. O primeiro poema que a criança escuta tem a forma dos silêncios que se escondem nas pausas da voz. O que a mãe diz à criança é importante, mas o que ela cala é ainda mais verdadeiro. A criança escuta e acredita. Está tudo bem.

 

*

A VIDA

passa por mim, deixando sulcos nos caminhos do rosto. As pedras desbastam-se pela inércia do tempo. A idade é um lugar de onde não existe evasão e faz o seu trabalho a partir de dentro. Vê-se por fora porque há um labor do espírito que ultrapassa as fronteiras da pele e depois pára para descansar. É um peso que se chama "incerto futuro" nas folhas rasgadas de um calendário perpétuo e sempre provisório. Não posso pensar sobre o porvir porque ainda não sei o que significa a duração de cada dia. Mas sinto a pressão no peito, uma mão enroscada e interior a querer segurar o coração ainda vivo, fechado na caixa de veludo que me foi oferecida quando eu nasci. Sinto um cordão umbilical ligado a mim mesma, quase separado da minha velha mãe, como uma pequena agonia por não saber se conseguirei escrever a última página do manuscrito da minha vida ou se alguém a escreverá por mim. Um ponto sem retorno neste dia em que as delicadas flores de cera se derretem em câmara lenta sobre a minha cabeça e lentamente me vão enterrando. Uma pequena-grande tragédia, portanto. Apenas um instante e quebram-se todos os espelhos onde tantas vezes me vi: uma menina de olhos abertos como pedras vivas: uma menina de mãos dadas com os monstros que estão neste caminho onde inevitavelmente se vai construindo uma ponte para o outro lado, quando os olhos se fecharem.

 

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AMOR E CONTEMPLAÇÃO

é o que resta debaixo de um tecto de vento e glória, situado longe das rotas de colisão. A casa da mãe, ainda a mesma casa. Os teus olhos maternais conduzem o meu escuro. Em silêncio, aceitas o que te dou como se não houvesse amanhã. Ainda somos mãe e filha no amor e na contemplação. Mas deixa cair as palavras, eu guardarei as que fazem sentido para te declamar um poema de cristal. Já nasceu um novo dia, igual ao primeiro dia em que fomos tu e eu. Ainda somos nós, ainda estamos aqui de corações ao alto. De todas as dúvidas sobressai a verdade total: nós somos o nosso segredo nesta linha de escrita.


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_336

sábado, 9 de abril de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [36] por Adília César


E este paraíso prometido pelo poeta, distante como está, banha toda a sua obra de uma imortal claridade – que é a essência da serenidade.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

Pormenor de obra de Anna Boghiguian na Anozero
Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, Dezembro de 2019 
CréditosFrancisco Palma

*

SOMOS IMORTAIS

na arte. Prolongamos na efemeridade do momento criador uma essência artística, por vezes estética. A alegria não parece fazer parte dessa equação. Já a doença, tão reveladora da condição humana, perpetua uma certa condição intrínseca da imaginação, escavando bem fundo, até doer o que ainda não doía.

 

*

A DOENÇA

pode ser uma patologia de descoberta do eu. Afinal, quando estamos sãos e felizes, o que há a dizer aos outros sobre a nossa interioridade? Estou feliz! Sim, e depois? Já as agruras do destino, os sentimentos de culpa e de inquietação pesam na consciência. Transbordam das margens da pele, dos orifícios do corpo, da escuridão da tristeza. Ah… a melancolia, essa arma de arremesso da criação.

 

* 

A MELANCOLIA

enquanto característica humana instala-se e identifica-se com a metáfora filosófica, poética, artística. Individualiza-se, torna-se autoral de objectos artísticos. É uma tentativa de cura do mundo que está doente, melancólico. A melancolia pode ser a doença e a sua cura. Talvez escrever sobre melancolia nos mantenha ocupados – o veneno poderá gerar o próprio antídoto. A aura estética da melancolia compensava o sofrimento que podia causar – ontem, tive a certeza que isto era verdade. E hoje?

 

*

NÃO EXISTE TOLERÂNCIA

para com os melancólicos. No degrau seguinte surge a depressão, afastando-se de uma certa condição existencial e transpondo-se para a doença mental. A fronteira é frágil, fina. E, todavia, se os fundamentos biológicos da depressão fazem todo o sentido enquanto distúrbio da bioquímica cerebral, que há a dizer sobre as possibilidades poéticas do indivíduo que parece viver no seio de um caos emocional permanente? Talvez a loucura faça parte das nossas vidas, talvez os loucos sejam normais, talvez a loucura seja urgente. Para já, digo apenas isto: William Burroughs, Arthur Rimbaud, Charles Bukowski, Dino Campana, António Gancho. Mas há mais, muitos mais. Eles andam por aí, cobertos de fatiotas de ironia. Neblina, escuridão. Eles são os poetas loucos, malditos, melancólicos.

 

*

OS POETAS MELANCÓLICOS

nunca estão satisfeitos, não alcançam a serenidade espiritual nem veem a luz nos seus versos. Procuram, escavam e enterram-se, voluntariamente, numa morte anunciada. Os seus poemas são as suas sepulturas. Depois, os poetas melancólicos renascem e a procura recomeça. Os fracassos do homem perante a vida ditam verdadeiras obras primas, são testemunhos intemporais da condição humana autodestrutiva.

 

*

JÁ LESTE

“Uma temporada no inferno” escrita em 1873, de Arthur Rimbaud? Não? Então, devias. Talvez o inferno seja, afinal, um paraíso.


Adília César, https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_334

sábado, 26 de março de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [35] por Adília César

 

Mas esta cortesia, em que havia emoção, provinha sobretudo de que o escritor, há cem anos, dirigia-se particularmente a uma pessoa de saber e de gosto, amiga da eloquência e da tragédia, que ocupava os seus ócios luxuosos a ler, e que se chamava «o Leitor»: e hoje dirige-se esparsamente a uma multidão azafamada e tosca a que se chama «o público».

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)


Cruzeiro Seixas

* 

NAS CIRCUNSTÂNCIAS

atenuantes do poema estão sempre as palavras, como se fossem penitências, feridas agravadas pela insistência do poeta. Quando os poemas se escrevem nos espaços brancos entre as palavras, inscrevem-se numa opacidade ainda confusa. Nesse movimento de contração e de expulsão, saem do pensamento através de um mapa onde não há caminho até à salvação. E a “obra”, que se pretende “edifício da linguagem”, renasce na geografia de um qualquer significado, junto ao paraíso, na fronteira do fascínio poético. Contudo, raramente encontra a porta de entrada. O poema fica ali, sem saber o que fazer. Tantas vezes, apenas uma ruína restará. Que faremos com a decadência criativa?

 

*

A PREDISPOSIÇÃO

para ler poesia não é uma implícita condição da pessoa. Esse ser raro, quase mítico, «o Leitor», possui conhecimento e gosto literário que vai muito para além das notificações que recebe no seu smartphone. As redes sociais desfiam um rosário de poemas e aforismos que terminam, literalmente, na Cruz-da-Minha-Paciência. De vez em quando, uma honrosa excepção ilumina o cais quase sempre obscuro onde estão depositados os livros à espera de viajar pelas mentes humanas. Na verdade, nem todos os livros desejam esse destino. Uma vez, um Pequeno Livro de uma Editora de Vão de Escada disse-me que lhe parecia mais decente atribuir-se prémios aos melhores leitores e não aos melhores livros. Perante o meu espanto, o Pequeno Livro da Editora de Vão de Escada ainda admitiu que preferia ser lido por poucos leitores e bons, a muitos e maus.

 

*

EU,

que faço parte de uma “multidão azafamada e tosca a que se chama «o público»”, não sei remar no grande barco que nos transporta e corro sérios riscos de naufrágio, apesar dos avisos à navegação contidos nas inabaláveis pilhas de livros que se vão erguendo à minha volta de forma compulsiva, embora não totalmente aleatória. Livros à espera de serem lidos, não por ordem de chegada, mas por nível de interesse pessoal. Cuidado, a quantidade não conduz à qualidade, digo. As palavras são como penitências e saem do pensamento até à salvação, na fronteira do fascínio poético. Contudo, na maior parte das vezes não conseguem lá entrar. Que nome hei-de dar a este país onde já ninguém sabe o que é a literatura?

 

*

TU

não és igual a mim e tens predisposições literárias diferentes das minhas. Tu gostas de romances e eu prefiro os contos. Tu aprecias considerações psicológicas e eu adoro fundamentações filosóficas. Tu deleitas-te com um ebook e eu anseio ter nas mãos um livro-objecto. As palavras são sempre as mesmas, como uma combinação simbólica de desenhos concebidos para fazerem sentido nas nossas cabeças, embora não raras vezes a leitura seja feita com os corações. A cabeça galopa violentamente através das sinapses frenéticas dos seus neurónios, mas o coração bate devagar e equilibra a pressa do trabalho cerebral. Ler, apreciar, usufruir, pensar. Por vezes, escrever. E assim vai rodando este mundo literário desmoronado, tendencioso, tantas vezes distraído. Imagens provisórias, crostas de pó, paredes elevadas em labirinto perpétuo dos que ali viveram, emparedados no silêncio dispensado dos que foram à guerra, os desumanos, os utopistas e os que nada sabiam sobre ideologia. Sobrou o vazio, uma espécie de vida que cresce nas cidades arruinadas quando todos são necessários noutros lugares em construção, esse amplo espaço indigno de desgosto.

 

*

A SIMPLICIDADE

não é um conceito tautológico, como uma demarcação da realidade racional e expressiva. Tangível. Registo no diário infinito do destino o que não consigo explicar por palavras minhas. A simplicidade é de uma extrema complexidade, implica resumir a significância de um gesto erudito para nomear a grandiosidade de um símbolo, a ofuscação da estética da existência. Ou apenas o silêncio na respiração de outro silêncio, quando os silêncios são e estão vivos (ser e estar é a questão central) e não perdem a validade no decorrer da experiência poética. Quando a morte da poesia é anunciada, ouvem-se os gritos que carregam a bandeira da liberdade. A primeira inspiração, o último suspiro. A vida ficcionada. A ficção vivida. Pura imitação. Bem sei que há outros templos estéticos, mas a poesia dá-me a ênfase que sempre procurei.

 

*

NÓS SOMOS

aquilo que lemos. Esta é uma verdade simples que faz todo o sentido para mim. Temos o direito de ler, não importa o quê (Daniel Pennac), mas cuidado: há maus leitores de bons livros e um mau livro pode estragar um leitor principiante ou mediano. As boas escolhas são fundamentais. E perguntas: “mas o que é uma boa escolha?” Outra verdade em que acredito tem a ver com o facto de um livro poder ser aquilo que o leitor faz dele. Gostar ou não gostar, não é uma questão: este tipo de apreciação não é suficiente nem para o livro nem para o seu autor. É necessária uma coragem inusitada e uma entrega visceral para mergulhar num livro e apreciá-lo despido dos nossos próprios preconceitos. A simplicidade é um gesto erudito para nomear os silêncios da experiência poética.

 

*

NÃO POSSO

abandonar estas considerações pessoais sem referir uma das maiores perplexidades do meu quotidiano: parece haver mais escritores do que leitores. Se assim for, a literatura está condenada ao fracasso, apesar dos inúmeros fantasmas que povoam o nosso imaginário literário. Do passado, já não herdamos os velhos hábitos de leitura que nos ensinaram na escola. É importante ensaiar uma certa flexibilidade perante as nossas convicções antigas e ensaiar novas ficções, porventura mais adequadas ao futuro. Ler o quê? Ler como? Ler para quê? E, finalmente, o que é a literatura, o que é a poesia e de que modo poderão fazer parte das nossas vidas? Imagens provisórias e esvaziadas dos ecos. Sobrará o vazio em construção quando a morte da poesia for anunciada e as ruínas desaparecerão no vazio do pensamento. Todas as obras literárias também. E se estas conexões da linguagem já forem consideradas totalmente virtuais, apesar de termos um livro nas mãos? Ah, mas assim a crónica seria outra.


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_332

sábado, 12 de março de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [34] por Adília César


Encontrando aos pés uma pedra, nós não ficamos num tremor de emoção, a interpela-la em violentas estrofes, à espera que uma voz de dentro responda revelando o inefável mistério: homens positivos, as pedras utilizamo-las para levantar mais o nosso muro ou apedrejar mais o nosso semelhante.

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

"Wind", Vladimir Kush (Realismo Metafórico)

*

HÁ UM ROSTO,

em cada casa, que está à espera. Esperar é acreditar na possibilidade de uma ideia. Uma ideia positiva, como um jardim em redor da casa. Um jardim de flores coloridas como se fossem sentimentos do lar. Aquele rosto que espera, por dentro de cada casa, sabe que algo vai começar a bater à porta, vai começar a tocar à campainha. Vai conseguir entrar, à força. O rosto da casa sente o sobressalto. Pressente o espasmo da invasão. Contudo, quem espera nada alcança: é preciso fazer alguma coisa. É preciso iniciar a viagem, pisar as ruínas, invocar um deus qualquer. Enquanto ainda não batem à porta. Enquanto ainda não tocam à campainha. Enquanto ainda não entram à força. O rosto exibe a urgência de olhar o jardim, de regar as raízes dos dias, pela última vez. Agora, é preciso acautelar a vida.

 

*

 

ANTES,

eu era a rainha das flores pequenas e passeava pelos canteiros, sulcando rugas no rosto da casa. Alguém disse que eu estava destinada a escalar a montanha mais alta, descobrir o tesouro mais valioso, sobreviver à tempestade perfeita. Mas nada disso aconteceu. Lentamente, desviei-me dessa rota vitoriosa. A cada passo, a cada olhar, havia uma assombrosa descoberta nas pequenas coisas que se amontoavam em redor da casa: a fragilidade, o toque, a subtileza disso. Pétalas levemente pousadas no chão, subjugadas à minha irresponsável podestade. Um dia, coloquei uma coroa de flores e caminhei pelo mundo, de cabeça erguida. As flores cresceram na minha imaginação e, ao fim de algum tempo, tornou-se difícil caminhar com uma cabeça tão desproporcionada em relação ao corpo, assim ampla e expansiva, como um balão a arder no drama que era agora a minha vida. O corpo, a raiz. Ao mesmo tempo, o manto que me cobria, de tão intensamente humano, dissolvia-se em fios de sangue. Alguém disse que isto se chamava inquietação. A viagem, essa estranha substituta.

 

*

UMA CABEÇA

a arder no drama, vinda de uma voz de dentro. Muitas cabeças a arder no mesmo drama: dúvidas, angústias filosóficas, limitações existenciais. E também medo. Ao longe, há um coro de vozes monocórdicas que me impede de acordar. Quem sou eu, assim derramada sobre o lençol branco e asséptico, nos confins da escura gruta? Quem és tu, minha pequena flor a nascer no meio das pedras? Por entre as sombras, outras sombras: o que vejo não é o que eu queria ver.

 

*

O TEMPO

descaminha a grandeza da minha viagem. O passaporte está em branco. A campainha não pára de tocar. A porta abre-se repentinamente porque era impossível permanecer fechada sobre o seu próprio rosto. A porta abre-se num grito, como se fosse uma garganta estilhaçada. O rosto desfeito ainda quer olhar o jardim, ainda quer regar as raízes dos dias. Ainda quer acautelar aquela vida. Ainda. A casa é agora um lar apenas invocado, uma igreja sem deus. As suas ruínas são as minhas memórias.

 

*

A VIAGEM

é uma estranha substituta para a vida. Uma esperança. Um número de telefone. Uma fatia de pão. Um choro. Uma cama improvisada. Um pacote de bolachas. Uma interrupção. Um soldado. Uma garrafa de água. Um vazio. Uma ferida. Um olhar para o que ficou para trás, apenas um. Uma notícia. Outra notícia. Mais uma notícia. E mais outra notícia. Ainda a mesma notícia. Um carrocel. Um discurso incompreensível. Ou então ainda é um sonho. Olhar em frente. Mas.

 

*

EIS A PORTA

que eu tanto procurava. Descubro um outro mundo bem diferente daquele que me parecia tão real, tão meu, tão íntimo. Tão estrangeiro. Aqui, neste mundo novo, eu e os outros que me seguem já não somos caminhantes, mas sim o próprio caminho. Sem rosto, sem casa, sem jardim. Somos pedras. Somos um país. Somos outro país. E também somos uma comovente vergonha do espectador que assiste ao noticiário das oito, sentado no seu confortável sofá. Nós – os caminhantes, as pedras – olhamos o teu rosto, vemos a tua casa quando chega a última hora do dia. Estás cansado? Então bebe um chá, apaga a televisão, veste o pijama. Deita a tua consciência. Enquanto ainda não batem à porta. Enquanto ainda não tocam à campainha. Enquanto ainda não entram à força. Que farás daqui para a frente com as raízes dos teus dias?


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_330

sábado, 26 de fevereiro de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [33] por Adília César

Ela [a ideia única] é a companheira espectral da sua vida: surge-lhe de repente de trás das coisas mais singelas, solicitando-lhe a comiseração ou a ira: - e, assim, na ramagem que geme sacudida pela tormenta, ele sente logo as lamentações de uma multidão oprimida, e não pode debruçar-se sobre um berço adormecido, sem que tanta paz lhe recorde as violências que revolvem o Mundo.

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)


©John Wilhelm.ch

* 

A GUERRA

é sempre uma questão humana global porque habitamos um mundo interdependente. A guerra, a violência, a transgressão. Logo, a guerra está destinada à sua própria condenação moral. Mas será esta ideia “única” assim tão linear? Sim, a guerra é indesejável. Mas e se a guerra contribuir para a paz? Mas.

 

*

O PODER

é exercido sobre nós e os outros todos os dias das nossas vidas. Entramos em conflito. A violência define-nos enquanto agentes de socialização próxima e global. Exercemos o poder da violência e sofremos os efeitos do poder exercido pelos outros. Somos agentes da violência, carrascos e também vítimas.

 

*

AS TONALIDADES

das guerras a que nos fomos habituando ao longo dos séculos confundem a nossa percepção. A guerra, não sendo um estado normal da sociedade, tem sido a companheira das civilizações ao longo da nossa história. A guerra e a sua consequente violência organizam a ambiência geopolítico-económica que caracteriza as vidas das pessoas. As fronteiras não são só territoriais, são também culturais e éticas. Se a condição humana é bélica, como havemos de lidar com esta contemporaneidade difusa, maléfica, sofrida, comovente? Quem somos e o que andamos aqui a fazer? O que é o Bem e o Mal?

 

*

O PACIFISMO

é uma ideia sedutora, mas torna-se ridículo face à monstruosidade do Holocausto, por exemplo. Que face podemos oferecer ao agressor? Nenhuma, na minha opinião. Devemos então considerar que há guerras justas, por constituírem a única estratégia disponível dos agredidos e violentados? Lutar pelo Bem é lutar por tudo o que é caracterizado pelo Mal, indo além de dogmas, religiões, ideologias. Mas.

 

*

NÃO É POSSÍVEL

colocar a tirania de um governante no mesmo plano da tolerância dos que dela sofrem as consequências. Não é possível, à distância de 4026,5 km, aceitar a invasão da Ucrânia pela Rússia. Não é ético. Não é possível, pela duração de 42 horas de viagem, implementar um sentimento de indiferença face à lonjura entre os dois países. Lutar pelo Bem, neste caso, é defender o direito e a legitimidade de um país não ser invadido por outro, é um imperativo. Lutar em nome do Bem é entrar em guerra ao lado do povo sofredor. Mas e se a guerra for apenas um jogo de funerais de ambos os lados da cerca política? Quem sai vencedor? Apesar do fogo abrasador das bombas, a guerra é sempre gelada.

 

*

A HISTERIA

instalou-se. Hoje, há uma cerca política onde os povos de ambos os lados se vão barricando como podem: ideias totalitárias, brinquedos mortais, tiranias, filosofias sem bandeira. E ainda medo. Esses povos de ambos os lados compartilham a mesma biologia. São homens, mulheres, crianças, com instinto de sobrevivência. Fazem parte de uma família. Querem ter um papel activo na sociedade e dão o seu contributo na escola, no trabalho, na arte, no desporto, na cultura. Em suma, vivem as suas vidas. Desejam ser felizes. À solta na minha cabeça, com todos os meus sentidos povoados pelas notícias instantâneas que me chegam sobre a guerra, surge uma pergunta que expressa a minha sensível indignação: será que os russos também amam os seus filhos?

Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_328

sábado, 12 de fevereiro de 2022

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [32] por Adília César

 

Teve por isso de construir outra linguagem que pudesse traduzir todo o homem, toda a Natureza, nos seus mais adversos extremos, desde o bestial ao divino: tão fina, tão delicada e transparente, que nela pudesse transmitir-se, sem se evaporar, o aroma de uma simples flor silvestre; tão forte e resplandecente que, através dela, ganhassem brilho e força o diamante e o ouro; tão dúctil, penetrante, transcendente que pudesse modelar o invisível e dizer o indizível.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

Fuchsia,” 1938, raio x de flor, por Dr. L. Dain Tasker

*

DECOMPOR

uma paisagem em sons breves. A vida. Ver a paisagem nos chilreios das aves, nos silvos das serpentes, nos cascos das bestas galopantes. Perseguir o paraíso como mentira veloz, à frente do tempo. Escrevo. Decomponho palavras, separo-as das suas sombras. Corro atrás do tempo para que a última hora não me alcance. As palavras agonizam, deitam-se sobre as esferas do movimento da terra. Construo paisagens que se adivinham no ângulo do voo. Subitamente, uma maçã cai sobre a minha cabeça. O tempo extingue-se no instante da epifania.

 

*

ALGUÉM

diz um verso de morte lenta enquanto as nuvens organizam o alimento do espírito em ponto pé de flor. O sentido do discurso é semelhante a um acontecimento clássico, mas qualquer coisa parece fora do lugar e os verticilos florais tombam com o peso dessas memórias tão antigas. São gotas de chuva ou lágrimas? Não sei responder, por tamanha ser a imensidão da tragédia. A mulher reflectida conduz-me através do espelho do mundo, mas há uma agulha muito fina e impiedosa que me prende ao cenário humano de onde nunca mais consigo sair. Quem és tu, ó mulher reflectida? Talvez não sejas mais do que uma criança, assim deturpada, assim incómoda na tua nobreza, apesar da linha de sangue que escorre do coração, e vai manchando o vestido branco, e vai indicando um caminho possível para o amor que nos inunda de luz. E.

 

*

TU

vinhas de um modo urgente de pousar telegramas sobre os móveis e mantinhas-te encerrada na casa de vidro com as árvores de papel em redor, em chamas. E, todavia, a clausura voluntária soava a falso, fria como a neve. Não tenhas medo, esses súbitos são as páginas da tua vida por descobrir – digo neste silêncio maternal, quando sabemos que tudo irá recomeçar. Nada mais existe além da superfície lisa da pele da casa, nada mais existe além do rio de sangue que inunda a tua cabeça. Coragem, procura a serenidade disso. O sonho lateja, forte como um diamante. Resplandecente como ouro, deita-se sobre a página vazia que espera contigo a possibilidade da escrita. Agora, escrevo para poder correr à frente do tempo, escrevo para que o tempo não me alcance. Falo comigo mesma, do alto desta solidão de escada íngreme, quase a cair. É este o meu testamento. É esta a minha imortalidade. É este o meu desafio: descer todos os degraus sem nunca os ter subido. A flor silvestre como deus da natureza conhece a linguagem da infinitude, por ser tão efémera, por ser a totalidade da perfeição aprisionada naquele perfume, naquele peso de um deus das pequenas coisas. Levo-te comigo e ordeno-te que também escrevas. E, todavia, tu não queres ir: queres ficar ali, a sangrar, enquanto povoas os socalcos das nuvens com os tons frios que consegues imaginar. Gostas do tormento da solidão, do equilíbrio entre margens tão distantes como o sol e a terra. E.

 

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SE EU

te ensinar tudo o que sei, poderás perdoar-me, à distância de um século, à distância de um milénio? E depois irei embora para aquele longe de onde já não possa voltar atrás. Repara, esta escrita ainda não é linguagem, é apenas um processo doloroso de cair nas ravinas do pensamento. Repetes tantas vezes as mesmas palavras, tu, mulher reflectida, tu, percepção inacabada que não entendes o idioma que acabaste de inventar. Tu, que não és capaz de entender a flor no espelho. Tu, que partes o espelho para ficares em silêncio eterno. Basta! A paisagem escurece com as sombras das palavras e repete comigo: basta!

 

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ASSIM

será. De sombra em sombra, outras palavras estarão sujeitas a escrutínio. Seremos assolados por um novo caos, porventura mais meritório do que o que foi, entretanto, extinto. Outros diamantes, outros ouros, outras flores silvestres, outros pesos no peito apertando o coração: por exemplo, tu, a mulher reflectida num espelho mais inteiro e progenitor. A vida sob renovada forma, depois de abandonarmos tudo o que nos foi dado, tudo o que se perdeu. Será que Deus nos vai perdoar?


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo_326