sábado, 28 de novembro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [6] por Adília César

A galope, a galope, ó Fantasia,

Plantemos uma tenda em cada estrela!

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

Pintura surrealista de Remedios Varo (1908-1963)

*

ESTOU AQUI

em frente ao espelho a olhar para dentro há algum tempo. Não vejo a nitidez do que estou a pensar. A máscara é a minha cara, agora, durante o tempo todo. Não gosto. Hoje, logo de manhã, deixei cair a máscara ao chão quando tentava colocá-la. Olhei-a demoradamente e em vez de a apanhar para a deitar no lixo, pisei-a como se fosse um escorpião venenoso. Não é. A máscara é o meu rosto de todos os dias, o rosto oculto, a espessura protectora face ao agente infeccioso. Onde havemos de deitar a inquietação, se a visão periférica da patologia atordoa os nossos sentidos? Resta-nos olhar em frente, mas sem a distracção dos espelhos.

 

*

ESTOU AQUI

perante a percepção de um número infindável de corpos reais, irreais e a-reais que possuo. Alguns servem-me na perfeição como uma segunda pele e outros não cabem nesta forma disforme que se transformou em salina. Os corpos não estão todos vivos. Caminho por entre os mortos com o meu corpo imaginário, despido de nobreza e de afectos permitidos. Apenas uma enorme compaixão anónima e universal por aquilo que consigo ser, a personificação da tragédia, quando as palavras arrefecem abruptamente e congelam naqueles gritos silábicos, fonemas condensados em alturas tonais fortificadas nos medos: uma sinfonia harmónica do terror da morte afogada no sofrimento. Caminhamos agora todos juntos outra vez e o que não vemos é o que sabemos não nos pertencer, a fisicalidade perene dos corpos vivos. Talvez os deuses nos esperem. Talvez os demónios sombrios sejam cegos na sua fome de maldade e não reconheçam os sinais de quem aceitou a fatalidade enquanto passeia serenamente sobre as águas. Talvez a vida seja isto. Um oceano infinito de paz, ao alcance do nosso corpo imaginário, sem nome, longe dos trópicos do medo.

 

*

ESTOU AQUI

numa fuga à percepção viva do que julgo ser a minha realidade, através de um imaginário emocional de nevoeiro melancólico. A vida, antes fantasiada - a fuga à realidade impõe-se através da fantasia - torna-se agora estéril e imutável, pela impossibilidade de existência no meu mundo que penso ser real, através dos arrepios de frio. A essência do que sinto não existe, apenas insiste num gesto de telepatia espiritual – a realidade inatingível do universo dos outros, antes irreal e idealista, torna-se agora "a-real". No entanto, desenvolver conceitos abstractos é agora uma tarefa árdua e irrelevante: há dias que são apenas dias parecidos com os anteriores; há um frio que é apenas o frio que me obriga a vestir um casaco; há um tempo de confinamento forçado que me leva a escrever um longo conto sobre, precisamente, o tempo de confinamento. Decerto, um tema pouco original. Esta vontade abrupta de dizer qualquer coisa, levada ao seu expoente máximo, como um galope da fantasia que quer entender a realidade. Então, um dia, as palavras escreveram-se sozinhas:

- Lá fora, os outros.

E eu, cá dentro, a viver uma não-vida, pensando, lendo, escrevendo. Lá fora, os outros, alguns atentos e tantos distraídos. O acto público de exposição do pensamento criativo está cravejado de estrelas cintilantes que os outros adoram ou ignoram. Eu escrevo, tu escreves, ele escreve, nós escrevemos, vós escreveis, eles não lêem. Ponto final.

 

*

FICO POR AQUI

porque hoje não consigo ir mais longe. Os dias são, na verdade, provisórios e possuem uma fronteira demagógica em relação ao corpo das notícias elevado até ao expoente do absurdo: números, estatísticas, orientações, restrições, contradições. E depois ainda mais números, mais estatísticas, mais orientações, mais restrições, mais contradições. E depois… O melhor é não pensar mais nisto em que estou a pensar. Partir o espelho, quebrar a muralha da inquietação.

Adília César

in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__273

sábado, 14 de novembro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [5] por Adília César


As cinco tiras de papel ali estão sobre a mesa, lívidas, irónicas, vazias:

e é necessário enchê-las todas, de alto a baixo,

com coisas extraídas do nosso interior.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

s/título, por Cruzeiro Seixas (1920-2020)

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A ORIGEM

implica todas as percepções relativas aos acontecimentos. Não é possível queimar etapas. Volto atrás para compreender como tudo começou. Um flashback – como se diz em português? – um flechebeque, pois, um regresso, um retorno, um retrocesso. Súbito de luz que não se apaga.

 

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A MINHA MÃE

foi durante muito tempo uma leitora assídua da biblioteca municipal da cidade onde vive há mais de 60 anos. Ultimamente, o seu ritmo de leitura era de cerca de três livros por semana. Alguns problemas degenerativos de visão vieram impedir essas horas diárias de felicidade e assim, quando posso, ofereço-lhe não só o livro, como antes, mas também tempo de leitura em voz alta. Ao ler poesia para a minha mãe dei-me conta de uma intimidade única, muito nossa, na experiência de leitura e de comunicação sentimental - amor, solidariedade e fruição estética. Na verdade, é muito comovente. Já me têm perguntado para que serve a poesia: não sei, talvez sirva para recriar o meu cordão umbilical com aquela mulher espantosa que me deu a sua e a minha vida inteira. Hoje, dei-lhe uma hora do meu tempo. Quanto tempo tem uma hora?

 

*

 A VIDA

é uma miragem dos sonhos quando o tempo não dá tempo para olhar o passado e nos obriga a aceitar que o fluído temporal não é um horóscopo de filtros cor de rosa. Outras cores tingem a espuma dos dias. Perante o desconhecido, fugimos dos acontecimentos como se nos desviássemos daquelas pequenas ondas de um mar de outono. Frio, sombrio, perturbador, mas ainda não fatal. E caminhamos enquanto nos sugam a energia e a paciência.

 

*

 A OVELHINHA

e o lobo estão em cena no mesmo plano ficcional. A ovelhinha existe porque o lobo a deseja. O lobo existe porque a ovelhinha o deseja. Mas ela tem medo.  E ele gosta que ela tenha medo. A ovelhinha não sabe que pode saltar para as costas do predador. Não sabe que tem tempo, muito tempo, para aprender a dar o salto até àquele lugar que se chama lonjura, longe dos dentes afiados que lhe rasgam a voz.

"A lonjura não existe", diz a ovelhinha.

"O eco de uma existência banal é silencioso", responde o predador.

E ambos se calam para sempre. O silêncio da morte é tão concreto como a vida que o antecedeu. O vencedor será sempre a voz que conta a fábula.

 

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 POETIZAR

é um verbo decadente. Nas mil páginas escritas pelos outros, de acumulação coerciva do discurso, lanço a ousadia do escárnio. Rir é o melhor remédio. Rir dos sentires das almas bafejadas pela inspiração divina ao encherem cinco páginas de coisa nenhuma. O silêncio é dizer o nada, porque tudo já foi dito, noutros silêncios, com outras linguagens. E ninguém entendeu.

 

* 

DE REPENTE

alguém rompe o seu espírito e derrama naquele lugar o pensamento, a loucura, o suor, a utopia, a pretensão. O seu corpo é um prolongamento da razão e emoção, concretizadas, de algum modo muito particular e original, na obra de arte. A mão que se impõe é a própria vida e a possibilidade criativa no presente projecta o imaginário numa memória futura: este é o artista. Um dia, o imaginário do espectador será preenchido pela estética do criador. No momento dessa compreensão entramos livremente num universo desconhecido, de olhos fechados, inundados de luz: esse quarto escuro onde brincamos com o corpo todo.

 

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E SE

embrulhássemos bagos de uva em papelinhos de rebuçados? As uvas recriam um travo doce na nossa língua amargurada. De tão amarga. E por fim, ainda não será o fim.



sábado, 24 de outubro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [4] por Adília César


Ora, fazer rapidamente, e cada semana, esta simplificação concentrada da história, como o Tempo detidamente a faz através dos séculos vagarosos, é tarefa mais arquejante do que fabricar uma nobre teoria social ou desenrolar uma nova fórmula de arte.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

Arte de Michał Klimczak-SHUME

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A HISTÓRIA

da humanidade está cheia de pontos de exclamação. O Bem e o Mal, Deus e o Diabo, Eu e Tu. O que parece ser nome de oposição é, afinal, complementar, deliberativo; tantas margens para a mesma ponte que tentamos atravessar durante as nossas vidas coexistentes: nós e os outros. Como reconheceríamos uma boa nova, se a malignidade não existisse na comparação das respectivas consequências das nossas acções? Como invocaríamos um qualquer deus, se queremos fugir dos diabos a todo o custo? E por fim, mas talvez o mais importante, quem sou eu sem ti, nesta trama social onde construímos lugares mentais em constante movimento, nem sempre devidamente registadas nos arquivos do tempo?

 

*

 

A ARTE

é uma tautologia. A arte existe na arte, é arte enquanto processo e produto (criativos), está omnipresente no ser humano, perpetua-se a si mesma numa projecção eterna. A arte, nas suas diferentes manifestações, é tudo aquilo a que chamamos arte. Insisto na arte da mesma maneira que pareço ansiar por uma doença, um eczema incomodativo: sinto um ímpeto e escrevo compulsivamente, mas não quero apesar de querer. A experiência estética vai muito além do mero entretenimento, da compreensão natural de um fenómeno artístico, causando-me, por vezes, uma espécie de náusea emocional. A obsessão pela escrita perdura para lá de um frágil equilíbrio, atravessa uma fronteira que eu nem sabia que existia. Escrever porquê? Só tenho uma "não-resposta": escrevo porque tenho que escrever, escrevo porque sim. Escrevo a minha escrita e chamo-lhe arte. Porque sim.

 

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A IGNORÂNCIA

sabe que tem um destino oculto. O dorso macio e morno, os olhos pestanejantes e assombrosos, o discurso fácil e comovente. De vez em quando volta-se do avesso: crescem-lhe cornos na cabeça, saem-lhe espinhos das mãos, torna-se cega e muda. E fica muito quieta, à espera dos incautos que caem na sua armadilha. A ignorância pode surgir na forma de uma ideologia política, uma religião, um provérbio popular, mas nunca é uma distracção ou um acidente de percurso. Pelo contrário, é uma tenacidade voluntária fundamentada na incompetência colectiva e no medo face ao poder – formal ou informal – instituído. Aceitar a ignorância, sem esforço de contestação, é uma espécie de morte. É um crime.

 

*

O QUOTIDIANO

é superlativo. Noticiários infindáveis, decalcados uns nos outros, fazem a história da actualidade pandémica. As imagens e os sons passam a galope, parecem dirigir-se a mim, mas passam mesmo ao lado, sem deixar rasto. Por vezes, ocorre-me a infeliz ideia de que essas notícias não conseguem comunicar comigo porque eu não sou deste mundo. Não sou daqui, ocupo este lugar por mero engano cósmico. Não, eu não posso ser daqui quando não posso ausentar-me para parte incerta, longe dos velhos que morrem entubados, sozinhos; longe das barrigas inchadas por hérnias que parecem querer explodir sem que o SNS intervenha; longe das mãos estendidas; longe das obrigações impostas. A máscara não cobre apenas a boca e o nariz: é uma outra face total deste abominável mundo novo que nos caiu em cima da cabeça. A máscara serve para ocultar a tristeza. Eu agora uso máscara e assumo esta crua consciência de que sou de um país que ainda não existe.

 Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__269

sábado, 10 de outubro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [3] por Adília César

                                                 

A rotina, numa das  suas formas mais estúpidas, 

é a experiência caturra numa primeira impressão.


Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

"Atelier do Pintor" de Gustave Coubert


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A CEGUEIRA

é uma forma de desver. Olhamos e somos olhados nas colecções privadas da existência. Porque é do foro essencialmente humano que se trata, a matéria emocional assume-se como sendo da maior importância. Mas os estímulos visuais cansam-nos. Quantas vezes desviamos o olhar desse instante fugidio de miséria nos outros? Vemos a pedra, a árvore, o pássaro, a nuvem. Perdemo-nos num céu tão engrandecido pelo nosso sonho que se torna impossível organizar a nitidez das estrelas que o compõem. E de repente, eis uma pequena luz que se amplia e nos ilumina: é o desconhecido à nossa frente, na rua, no noticiário, no filme, no livro, no pensamento, no espelho. É aquele desvisto vezes sem conta, dia após dia na vida sobrevivida a tanto custo: é o meu vizinho, é o meu irmão, sou eu.

 

*

 

O ENSIMESMAMENTO

das impressões causadas pelo quotidiano esmeram-se na possibilidade infinita de pormenores. Queremos ser o outro: aquele que é mais magro, mais rico, mais belo, mais talentoso do que nós. Tornamo-nos açambarcadores de ambição. O espelho volta sempre em cada dia que, logicamente, pode ser o último, mostrando a rotina do nosso rosto que parece nunca mudar na sequência breve do tempo. Demoro-me na visão desta longa caminhada, mas volto sempre a mim mesma. Retiro a poeira dos olhos e esqueço o sol e a lua. Componho o cenário antes da desilusão.

 

*

 

DE VEZ EM QUANDO

a vertigem assoma-se no preâmbulo da tragédia sempre anunciada. É um cenário disponível para todos os seres vivos, inertes, colocados em frente ao écran. Tombam as pálpebras sobre a indisposição passageira, mas rapidamente se abrem perante o anúncio publicitário e manipulador. O que resta? A rotina da infelicidade dos outros ou o vislumbre nítido da nossa própria bondade? Ah, se as duas coisas fossem uma só, jamais adiada para o dia seguinte… Quantos de nós seriam capazes de tal proeza?...

 

*

 

UM LUGAR

de surpresas. Imagino o mapa que me atravessa de lés a lés. Ele percorre as minhas estradas sem pressa, os faróis acesos para aceitar o desconhecido, mas ainda assim, perde-se para me encontrar. O caminho percorrido é, em cada noite, o caminho já percorrido numa outra noite. A isto chamo de amor, verdade, inocência.

 

*

 

NO OUTRO LADO

do mundo, um homem escuta a sua música favorita num gira-discos tão velho como ele. Este tem sido o seu despertar rotineiro desde há muito tempo. Porque haveria hoje de ser diferente? Porque a explosão bélica se aquietou, por fim, no quarto destruído onde um velho liquefeito na cama não chegou a acordar e vai dormir eternamente naquela posição impossível? Não se vê o seu sangue na imagem a preto a preto, mas sei que o vermelho existe. Invento outras posições mais humanas para devolver dignidade àquele corpo, mais próximas do rigor necessário à redenção, mas não há dignidade na morte arrancada a ferros. O velho homem não entende o meu esforço e insiste em desfazer-se, confundindo-se com as ruínas da melodia. E eu, tão inútil na minha pretensão, adormeço exactamente à mesma hora em que todo o mundo acorda. O passado, esse espaço-tempo de incompreensão, rodeia-me através de um círculo sonoro de onde não pretendo sair. No sonho, sei que não pertenço a este monstro que agora acordou. No meu sonho, sei que sou a loba destemida que rompe os limites do impossível.


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__267

sábado, 26 de setembro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [2] por Adília César

A ciência realmente só tem alcançado tornar mais intensa e forte uma certeza:

 - a velha certeza socrática da nossa irreparável ignorância.

De cada vez sabemos mais - que não sabemos nada.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)



Niymas Najafov, "A Conversação", 2013

 

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A DEMAGOGIA

é uma doença assintomática e conduz o ser humano a um estado letal de ignorância e até de indiferença perante o mundo. Estamos todos doentes, mas ninguém o admite. Uma quantidade enorme de informação rodeia-nos por todos os lados, é como um oceano de plástico. Está ali por via da nossa própria insensatez, mas parece não nos dizer respeito. Compadecemo-nos dos pobres animais marinhos presos no lixo que lançamos às águas, vistos com os nossos olhos lacrimosos no documentário televisivo, e depois comemos uma bela sandes muito bem embrulhada em papel de alumínio e acondicionada dentro de um saco de plástico, enquanto molhamos os pés na babuja da praia mais próxima, para onde nos deslocámos no nosso BMW a gasóleo e gastamos meia hora, às voltas, à procura de um sítio para estacionar. É só esta vez, pensamos. E o mar, tão puro na relação que estabelece com todas as criaturas que serpenteiam por entre as algas, ainda cumpre a sua intenção de vida: o vai e vem das marés é isso mesmo, a oscilação da sua luta inglória nas correntes de vida, de morte e de demagogia. Quais serão as correntes mais fortes? Siza Vieira disse que “nenhuma árvore ou pedra arrancada à natureza nos é restituída”. Eu diria que o planeta é um parceiro de peso neste desumano jogo de xadrez: a causa e o seu efeito, tão conhecidos e ao mesmo tempo tão ignorados em cada jogada.

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A VIDA

tem os seus próprios direitos, mas nem sempre deles goza. Cometem-se crimes, mas o que mais impera são as absolvições. Tudo é perdoado, tudo é passível de um qualquer esquema de subterfúgios lamechas. É só esta vez, pensou ela quando ele lhe deu a primeira bofetada. Mas ele gostou da sensação que o ciclo de violência lhe soprou ao ouvido: a mão que bate é a mão que acaricia e limpa as lágrimas. É a mesma mão feita de osso, sangue, força bruta e adrenalina. Ela também gostou desta espécie de desamor, porque a face é feita de medo e o medo alimenta-se do ensimesmamento da rotina diária do crime e da sua inevitável absolvição. Ela acredita no seu precioso pensamento de luxo e adorna o seu pescoço, a sua garganta, a sua voz com um colar de pérolas feito de ideias nocivas: é melhor ter uma desilusão do que não ter coisa nenhuma.

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O SER HUMANO

está a transformar-se no seu maior inimigo. Somos indivíduos predadores em relação a todas as outras criaturas vivas, o que quer dizer que também somos auto-destrutivos. Lutamos pela terra, pela água, pela comida, pelos valores em que acreditamos. A cidadania tem muitos apelidos: somos feitos de sonhos, queremos ir mais rápido e mais longe, possuir mais coisas: equipamentos mais eficientes e gagdets com mais funcionalidades, comida rápida, medicamentos para curar todas as doenças, objectos essencialmente inúteis para usar e deitar fora. Não olhamos a meios para atingirmos os fins – corrupção política, destruição planetária e desigualdade social em larga escala. Mais, mais, mais. E se o futuro for mais do mesmo, não haverá um ponto sem retorno em que a única velocidade seja, inevitavelmente, a da câmara lenta? Menos, menos, menos, por favor. Nós, os humanos e a nossa irreparável ignorância num mar de destruição.

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A FUTUROLOGIA

define cenários possíveis, prováveis, desejáveis. Hoje em dia somos todos peritos. Cada um invoca o seu oráculo: uns, consultam a sua divindade favorita e outros, lêem a legenda curta que aparece a correr na parte inferior ou superior do ecrã da televisão durante a emissão do telejornal. Qual será a informação mais fiável? Só o futuro o dirá.

Vamos ficar todos bem?

Isto vai piorar e muito?

Vem depressa, espírito (o futuro não tem corpo), ajuda-me a contar essa história. A invocação do real é erro, pavor. E mortalidade suspensa sobre as nossas cabeças. A ciência como cura para todos os males, enfiada na nossa carne através do buraco feito por uma agulha.

É mesmo isso que querem? Um deplorável mundo novo?

Na verdade, faltam poucos meses para acontecer a melhor coisa deste ano: o fim dele. E depois, na medida do possível, tudo irá recomeçar num novo ciclo temporal mergulhado no mesmo molho agridoce. Mais do mesmo. E ainda assim, não escaparemos ilesos.

Adília César, https://issuu.com/danielpina1…/docs/algarve_informativo__265

 

sábado, 5 de setembro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [1] por Adília César

 

 

Nada facilita mais uma civilização que um bom clima.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)



Pintura de William Blake
 

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O SOM

predestina-se ao desprezo. Não ao ruído de fundo, sim à escuta. Estas teias de pequenos massacres diários cansam-me. E de repente, na cidade saturada de sons, há qualquer coisa que se sobrepõe ao resto: é a mansidão do bando de pardais que se recolhe na folhagem fresca. Agora mesmo: olho, mas nada vejo, apenas sinto o essencial. O coração é o ouvido absoluto da existência.

 

* 

A MÚSICA CLÁSSICA

tem uma relação imediata com a saudade que sinto pelo meu pai, essa linha efémera de água a brilhar ao sol, ao alcance da melodia da vida. E depois outras gotas vão passando pelo mesmo lugar, dando de beber à sede das memórias da infância. Não é uma tristeza verdadeira, nem sequer um desalento perante a respiração da ausência. A morte do meu pai aconteceu há muito tempo. Hoje, ele é este leve peso interior, como se fosse um acorde perfeito que se ouve com o coração. O andamento lento da vida perante a inevitabilidade da morte. Há vida para além de tudo o que nos atormenta.

 

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O RITMO

incentiva a velocidade até ao infinito. Um calendário não mede apenas a passagem do tempo. Afinal, os dias são provisórios, efémeros, tornam-se passado, mas também são o futuro comprometido com a tragédia humana. Que fazer com os dias? Têm assim tanta importância? Sim, os dias são meus, guardo-os amorosamente na carta sem princípio nem fim que escrevo aos meus herdeiros. Quero difundir a ideia banal, mas tão verdadeira, sobre a urgência de ter opinião formada sobre as vicissitudes que transformaram o tecido social, no sentido de cada um optar por uma atitude cívica perante si e perante os outros. Hoje, mais do que nunca, não há "bolhas" individuais: o colectivo impera nestes dias tão definitivos.

 

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O TEMPO

passa por nós ou nós levamos o tempo connosco: há duas velocidades (podendo ser um processo rápido ou lento), mas não há duas medidas: é preciso decidir, logo desde o início, que tipo de vida queremos viver. A obrigação de ter um espírito positivo, a toda a hora, é tão entediante como um ramo de flores de plástico na montra de um talho. Num mundo onde nos atiram com uma enjoativa diversidade de mensagens positivas, sublimares e explícitas, pensar sobre a depressão é ainda um preconceito; e admiti-la parece constituir uma fraqueza do próprio espírito.

 

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O CLIMA

predispõe-se a amuos e incongruências. As estações do ano exibem visíveis devaneios, bem diferentes de outros tempos. Este fenómeno climatérico influencia, em larga escala, as mentes caprichosas dos criadores de canções populares. Até a fadista Mariza canta Quem me dera/ abraçar-te no outono, verão e primavera/ quiçá viver além uma quimera/ herdar a sorte e ganhar teu coração. O inverno desapareceu da equação amorosa, vá-se lá saber porquê. Matias Damásio, o autor da canção, provavelmente não gosta do inverno, estando em perfeita sintonia com Eça de Queirós, quanto este afirma: Nada facilita mais uma civilização que um bom clima.


Imagem: William Shakespeare, “A Midsummer Night’s Dream” (1590-7). Act V, Scene I. Painting: William Blake, “Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing” (1786). Tate Britain, London

Adília César, in  https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__263


sábado, 8 de agosto de 2020

EU SEI LÁ - RADIOGRAFIA DE UMA CANÇÃO


Bárbara Tinoco nasceu em Lisboa em 1998. Em 2018 vimo-la nas provas cegas do The Voice Portugal, onde cativou o júri e o público cantando uma canção de sua autoria, depois de saber que não tinha superado a prova. A perseverança autodidacta da encantadora Bárbara na actividade musical a nível da composição, execução e interpretação, desde os treze anos (guitarra e canto), aliada aos actuais estudos superiores de Ciências Musicais, fazem adivinhar um futuro promissor no meio artístico. Força de vontade, estudo, talento – Bárbara Tinoco tem tudo para ser um caso de sucesso, estando já marcados dois concertos para o mês de novembro de 2021 nos míticos Coliseus dos Recreios de Lisboa e do Porto.


Bárbara Tinoco

Este é o tempo de Bárbara, que já conta com mais de sessenta e dois mil seguidores no Instagram, na sua maioria jovens. As estações de rádio passam frequentemente canções suas que eu ouço com prazer. E, todavia, há algo que me incomoda na canção Eu sei lá:

Eu sei lá, em que dia da semana vamos/ Sei lá, qual é a estação do ano/ Sei lá, talvez nem sequer queira saber/ Eu sei lá, porque dizem que estou louca/ Sei lá, já não sou quem fui sou outra/ Sei lá, pergunta-me amanhã talvez eu saiba responder.
E eu juro, eu prometo e eu faço, e eu rezo/ Mas no fim o que sobra de mim?/ E tu dizes coisas belas, histórias de telenovelas/ Mas no fim tiras mais um pouco de mim/ Então força leva mais um bocado/ Que eu não vou a nenhum lado/ Leva todo o bom que há em mim/ Que eu não fujo, eu prometo, eu perdoo e eu esqueço/ Mas no fim o que sobra de mim?
Mas tu sabes lá, das guerras que eu tenho/ Tu sabes lá, das canções que eu componho/ Tu sabes lá, talvez nem sequer queiras saber/ Mas tu sabes lá, da maneira que te amo/ Tu sabes lá, digo a todos que é engano…

Longe de ousar fazer qualquer tipo de censura à actividade criadora de Bárbara Tinoco, que nem sequer se justifica neste caso, não posso deixar de comentar a natureza do amor que envolve a protagonista numa canção que é bonita por fora, mas que se a olharmos por dentro vemos qualquer coisa que não bate certo, como uma discrepância nos valores considerados adequados para os relacionamentos humanos. Há uma mulher. Diz que ama e perdoa. Não vai a lado nenhum, apesar do seu parceiro estar a contribuir para a desconstrução fatídica do seu eu interior, uma vez que ela é capaz de dar tudo por amor e nada receber em troca. Em suma, ela dá todo o bom que possui e o parceiro vai retirando bocados. O refrão insiste no processo destrutivo da mulher e finaliza com a pergunta crucial: Mas no fim o que sobra de mim?

Olha Bárbara, eu sei lá. O que eu sei é que a violência no namoro e no casamento ainda está muito longe de ter fim. Não sendo um fenómeno implicado directamente pelas canções que ouvimos, também é verdade que Eu sei lá induz em erro e implica um estado de rendição ao inadmissível. Já se percebeu que é uma bonita canção, mas também é preciso implicar o poder de uma lírica na intervenção social, no sentido de alterar essa rota humana tão ameaçada pela violência psicológica. Mais do que fazer perguntas é preciso ter a coragem de dar as respostas. E voltamos sempre ao círculo vicioso e desgastante da natureza do amor. Na verdade, só amar não basta: é preciso amar e ser amado. É preciso cantar bem alto a reciprocidade do amor. E não permitir que alguém leve de nós, mulheres, o bocado que nos resta.

Adília César