sábado, 24 de outubro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [4] por Adília César


Ora, fazer rapidamente, e cada semana, esta simplificação concentrada da história, como o Tempo detidamente a faz através dos séculos vagarosos, é tarefa mais arquejante do que fabricar uma nobre teoria social ou desenrolar uma nova fórmula de arte.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

Arte de Michał Klimczak-SHUME

* 

A HISTÓRIA

da humanidade está cheia de pontos de exclamação. O Bem e o Mal, Deus e o Diabo, Eu e Tu. O que parece ser nome de oposição é, afinal, complementar, deliberativo; tantas margens para a mesma ponte que tentamos atravessar durante as nossas vidas coexistentes: nós e os outros. Como reconheceríamos uma boa nova, se a malignidade não existisse na comparação das respectivas consequências das nossas acções? Como invocaríamos um qualquer deus, se queremos fugir dos diabos a todo o custo? E por fim, mas talvez o mais importante, quem sou eu sem ti, nesta trama social onde construímos lugares mentais em constante movimento, nem sempre devidamente registadas nos arquivos do tempo?

 

*

 

A ARTE

é uma tautologia. A arte existe na arte, é arte enquanto processo e produto (criativos), está omnipresente no ser humano, perpetua-se a si mesma numa projecção eterna. A arte, nas suas diferentes manifestações, é tudo aquilo a que chamamos arte. Insisto na arte da mesma maneira que pareço ansiar por uma doença, um eczema incomodativo: sinto um ímpeto e escrevo compulsivamente, mas não quero apesar de querer. A experiência estética vai muito além do mero entretenimento, da compreensão natural de um fenómeno artístico, causando-me, por vezes, uma espécie de náusea emocional. A obsessão pela escrita perdura para lá de um frágil equilíbrio, atravessa uma fronteira que eu nem sabia que existia. Escrever porquê? Só tenho uma "não-resposta": escrevo porque tenho que escrever, escrevo porque sim. Escrevo a minha escrita e chamo-lhe arte. Porque sim.

 

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A IGNORÂNCIA

sabe que tem um destino oculto. O dorso macio e morno, os olhos pestanejantes e assombrosos, o discurso fácil e comovente. De vez em quando volta-se do avesso: crescem-lhe cornos na cabeça, saem-lhe espinhos das mãos, torna-se cega e muda. E fica muito quieta, à espera dos incautos que caem na sua armadilha. A ignorância pode surgir na forma de uma ideologia política, uma religião, um provérbio popular, mas nunca é uma distracção ou um acidente de percurso. Pelo contrário, é uma tenacidade voluntária fundamentada na incompetência colectiva e no medo face ao poder – formal ou informal – instituído. Aceitar a ignorância, sem esforço de contestação, é uma espécie de morte. É um crime.

 

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O QUOTIDIANO

é superlativo. Noticiários infindáveis, decalcados uns nos outros, fazem a história da actualidade pandémica. As imagens e os sons passam a galope, parecem dirigir-se a mim, mas passam mesmo ao lado, sem deixar rasto. Por vezes, ocorre-me a infeliz ideia de que essas notícias não conseguem comunicar comigo porque eu não sou deste mundo. Não sou daqui, ocupo este lugar por mero engano cósmico. Não, eu não posso ser daqui quando não posso ausentar-me para parte incerta, longe dos velhos que morrem entubados, sozinhos; longe das barrigas inchadas por hérnias que parecem querer explodir sem que o SNS intervenha; longe das mãos estendidas; longe das obrigações impostas. A máscara não cobre apenas a boca e o nariz: é uma outra face total deste abominável mundo novo que nos caiu em cima da cabeça. A máscara serve para ocultar a tristeza. Eu agora uso máscara e assumo esta crua consciência de que sou de um país que ainda não existe.

 Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__269

sábado, 10 de outubro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [3] por Adília César

                                                 

A rotina, numa das  suas formas mais estúpidas, 

é a experiência caturra numa primeira impressão.


Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

"Atelier do Pintor" de Gustave Coubert


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A CEGUEIRA

é uma forma de desver. Olhamos e somos olhados nas colecções privadas da existência. Porque é do foro essencialmente humano que se trata, a matéria emocional assume-se como sendo da maior importância. Mas os estímulos visuais cansam-nos. Quantas vezes desviamos o olhar desse instante fugidio de miséria nos outros? Vemos a pedra, a árvore, o pássaro, a nuvem. Perdemo-nos num céu tão engrandecido pelo nosso sonho que se torna impossível organizar a nitidez das estrelas que o compõem. E de repente, eis uma pequena luz que se amplia e nos ilumina: é o desconhecido à nossa frente, na rua, no noticiário, no filme, no livro, no pensamento, no espelho. É aquele desvisto vezes sem conta, dia após dia na vida sobrevivida a tanto custo: é o meu vizinho, é o meu irmão, sou eu.

 

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O ENSIMESMAMENTO

das impressões causadas pelo quotidiano esmeram-se na possibilidade infinita de pormenores. Queremos ser o outro: aquele que é mais magro, mais rico, mais belo, mais talentoso do que nós. Tornamo-nos açambarcadores de ambição. O espelho volta sempre em cada dia que, logicamente, pode ser o último, mostrando a rotina do nosso rosto que parece nunca mudar na sequência breve do tempo. Demoro-me na visão desta longa caminhada, mas volto sempre a mim mesma. Retiro a poeira dos olhos e esqueço o sol e a lua. Componho o cenário antes da desilusão.

 

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DE VEZ EM QUANDO

a vertigem assoma-se no preâmbulo da tragédia sempre anunciada. É um cenário disponível para todos os seres vivos, inertes, colocados em frente ao écran. Tombam as pálpebras sobre a indisposição passageira, mas rapidamente se abrem perante o anúncio publicitário e manipulador. O que resta? A rotina da infelicidade dos outros ou o vislumbre nítido da nossa própria bondade? Ah, se as duas coisas fossem uma só, jamais adiada para o dia seguinte… Quantos de nós seriam capazes de tal proeza?...

 

*

 

UM LUGAR

de surpresas. Imagino o mapa que me atravessa de lés a lés. Ele percorre as minhas estradas sem pressa, os faróis acesos para aceitar o desconhecido, mas ainda assim, perde-se para me encontrar. O caminho percorrido é, em cada noite, o caminho já percorrido numa outra noite. A isto chamo de amor, verdade, inocência.

 

*

 

NO OUTRO LADO

do mundo, um homem escuta a sua música favorita num gira-discos tão velho como ele. Este tem sido o seu despertar rotineiro desde há muito tempo. Porque haveria hoje de ser diferente? Porque a explosão bélica se aquietou, por fim, no quarto destruído onde um velho liquefeito na cama não chegou a acordar e vai dormir eternamente naquela posição impossível? Não se vê o seu sangue na imagem a preto a preto, mas sei que o vermelho existe. Invento outras posições mais humanas para devolver dignidade àquele corpo, mais próximas do rigor necessário à redenção, mas não há dignidade na morte arrancada a ferros. O velho homem não entende o meu esforço e insiste em desfazer-se, confundindo-se com as ruínas da melodia. E eu, tão inútil na minha pretensão, adormeço exactamente à mesma hora em que todo o mundo acorda. O passado, esse espaço-tempo de incompreensão, rodeia-me através de um círculo sonoro de onde não pretendo sair. No sonho, sei que não pertenço a este monstro que agora acordou. No meu sonho, sei que sou a loba destemida que rompe os limites do impossível.


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__267

sábado, 26 de setembro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [2] por Adília César

A ciência realmente só tem alcançado tornar mais intensa e forte uma certeza:

 - a velha certeza socrática da nossa irreparável ignorância.

De cada vez sabemos mais - que não sabemos nada.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)



Niymas Najafov, "A Conversação", 2013

 

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A DEMAGOGIA

é uma doença assintomática e conduz o ser humano a um estado letal de ignorância e até de indiferença perante o mundo. Estamos todos doentes, mas ninguém o admite. Uma quantidade enorme de informação rodeia-nos por todos os lados, é como um oceano de plástico. Está ali por via da nossa própria insensatez, mas parece não nos dizer respeito. Compadecemo-nos dos pobres animais marinhos presos no lixo que lançamos às águas, vistos com os nossos olhos lacrimosos no documentário televisivo, e depois comemos uma bela sandes muito bem embrulhada em papel de alumínio e acondicionada dentro de um saco de plástico, enquanto molhamos os pés na babuja da praia mais próxima, para onde nos deslocámos no nosso BMW a gasóleo e gastamos meia hora, às voltas, à procura de um sítio para estacionar. É só esta vez, pensamos. E o mar, tão puro na relação que estabelece com todas as criaturas que serpenteiam por entre as algas, ainda cumpre a sua intenção de vida: o vai e vem das marés é isso mesmo, a oscilação da sua luta inglória nas correntes de vida, de morte e de demagogia. Quais serão as correntes mais fortes? Siza Vieira disse que “nenhuma árvore ou pedra arrancada à natureza nos é restituída”. Eu diria que o planeta é um parceiro de peso neste desumano jogo de xadrez: a causa e o seu efeito, tão conhecidos e ao mesmo tempo tão ignorados em cada jogada.

*

A VIDA

tem os seus próprios direitos, mas nem sempre deles goza. Cometem-se crimes, mas o que mais impera são as absolvições. Tudo é perdoado, tudo é passível de um qualquer esquema de subterfúgios lamechas. É só esta vez, pensou ela quando ele lhe deu a primeira bofetada. Mas ele gostou da sensação que o ciclo de violência lhe soprou ao ouvido: a mão que bate é a mão que acaricia e limpa as lágrimas. É a mesma mão feita de osso, sangue, força bruta e adrenalina. Ela também gostou desta espécie de desamor, porque a face é feita de medo e o medo alimenta-se do ensimesmamento da rotina diária do crime e da sua inevitável absolvição. Ela acredita no seu precioso pensamento de luxo e adorna o seu pescoço, a sua garganta, a sua voz com um colar de pérolas feito de ideias nocivas: é melhor ter uma desilusão do que não ter coisa nenhuma.

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O SER HUMANO

está a transformar-se no seu maior inimigo. Somos indivíduos predadores em relação a todas as outras criaturas vivas, o que quer dizer que também somos auto-destrutivos. Lutamos pela terra, pela água, pela comida, pelos valores em que acreditamos. A cidadania tem muitos apelidos: somos feitos de sonhos, queremos ir mais rápido e mais longe, possuir mais coisas: equipamentos mais eficientes e gagdets com mais funcionalidades, comida rápida, medicamentos para curar todas as doenças, objectos essencialmente inúteis para usar e deitar fora. Não olhamos a meios para atingirmos os fins – corrupção política, destruição planetária e desigualdade social em larga escala. Mais, mais, mais. E se o futuro for mais do mesmo, não haverá um ponto sem retorno em que a única velocidade seja, inevitavelmente, a da câmara lenta? Menos, menos, menos, por favor. Nós, os humanos e a nossa irreparável ignorância num mar de destruição.

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A FUTUROLOGIA

define cenários possíveis, prováveis, desejáveis. Hoje em dia somos todos peritos. Cada um invoca o seu oráculo: uns, consultam a sua divindade favorita e outros, lêem a legenda curta que aparece a correr na parte inferior ou superior do ecrã da televisão durante a emissão do telejornal. Qual será a informação mais fiável? Só o futuro o dirá.

Vamos ficar todos bem?

Isto vai piorar e muito?

Vem depressa, espírito (o futuro não tem corpo), ajuda-me a contar essa história. A invocação do real é erro, pavor. E mortalidade suspensa sobre as nossas cabeças. A ciência como cura para todos os males, enfiada na nossa carne através do buraco feito por uma agulha.

É mesmo isso que querem? Um deplorável mundo novo?

Na verdade, faltam poucos meses para acontecer a melhor coisa deste ano: o fim dele. E depois, na medida do possível, tudo irá recomeçar num novo ciclo temporal mergulhado no mesmo molho agridoce. Mais do mesmo. E ainda assim, não escaparemos ilesos.

Adília César, https://issuu.com/danielpina1…/docs/algarve_informativo__265

 

sábado, 5 de setembro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [1] por Adília César

 

 

Nada facilita mais uma civilização que um bom clima.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)



Pintura de William Blake
 

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O SOM

predestina-se ao desprezo. Não ao ruído de fundo, sim à escuta. Estas teias de pequenos massacres diários cansam-me. E de repente, na cidade saturada de sons, há qualquer coisa que se sobrepõe ao resto: é a mansidão do bando de pardais que se recolhe na folhagem fresca. Agora mesmo: olho, mas nada vejo, apenas sinto o essencial. O coração é o ouvido absoluto da existência.

 

* 

A MÚSICA CLÁSSICA

tem uma relação imediata com a saudade que sinto pelo meu pai, essa linha efémera de água a brilhar ao sol, ao alcance da melodia da vida. E depois outras gotas vão passando pelo mesmo lugar, dando de beber à sede das memórias da infância. Não é uma tristeza verdadeira, nem sequer um desalento perante a respiração da ausência. A morte do meu pai aconteceu há muito tempo. Hoje, ele é este leve peso interior, como se fosse um acorde perfeito que se ouve com o coração. O andamento lento da vida perante a inevitabilidade da morte. Há vida para além de tudo o que nos atormenta.

 

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O RITMO

incentiva a velocidade até ao infinito. Um calendário não mede apenas a passagem do tempo. Afinal, os dias são provisórios, efémeros, tornam-se passado, mas também são o futuro comprometido com a tragédia humana. Que fazer com os dias? Têm assim tanta importância? Sim, os dias são meus, guardo-os amorosamente na carta sem princípio nem fim que escrevo aos meus herdeiros. Quero difundir a ideia banal, mas tão verdadeira, sobre a urgência de ter opinião formada sobre as vicissitudes que transformaram o tecido social, no sentido de cada um optar por uma atitude cívica perante si e perante os outros. Hoje, mais do que nunca, não há "bolhas" individuais: o colectivo impera nestes dias tão definitivos.

 

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O TEMPO

passa por nós ou nós levamos o tempo connosco: há duas velocidades (podendo ser um processo rápido ou lento), mas não há duas medidas: é preciso decidir, logo desde o início, que tipo de vida queremos viver. A obrigação de ter um espírito positivo, a toda a hora, é tão entediante como um ramo de flores de plástico na montra de um talho. Num mundo onde nos atiram com uma enjoativa diversidade de mensagens positivas, sublimares e explícitas, pensar sobre a depressão é ainda um preconceito; e admiti-la parece constituir uma fraqueza do próprio espírito.

 

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O CLIMA

predispõe-se a amuos e incongruências. As estações do ano exibem visíveis devaneios, bem diferentes de outros tempos. Este fenómeno climatérico influencia, em larga escala, as mentes caprichosas dos criadores de canções populares. Até a fadista Mariza canta Quem me dera/ abraçar-te no outono, verão e primavera/ quiçá viver além uma quimera/ herdar a sorte e ganhar teu coração. O inverno desapareceu da equação amorosa, vá-se lá saber porquê. Matias Damásio, o autor da canção, provavelmente não gosta do inverno, estando em perfeita sintonia com Eça de Queirós, quanto este afirma: Nada facilita mais uma civilização que um bom clima.


Imagem: William Shakespeare, “A Midsummer Night’s Dream” (1590-7). Act V, Scene I. Painting: William Blake, “Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing” (1786). Tate Britain, London

Adília César, in  https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__263


sábado, 8 de agosto de 2020

EU SEI LÁ - RADIOGRAFIA DE UMA CANÇÃO


Bárbara Tinoco nasceu em Lisboa em 1998. Em 2018 vimo-la nas provas cegas do The Voice Portugal, onde cativou o júri e o público cantando uma canção de sua autoria, depois de saber que não tinha superado a prova. A perseverança autodidacta da encantadora Bárbara na actividade musical a nível da composição, execução e interpretação, desde os treze anos (guitarra e canto), aliada aos actuais estudos superiores de Ciências Musicais, fazem adivinhar um futuro promissor no meio artístico. Força de vontade, estudo, talento – Bárbara Tinoco tem tudo para ser um caso de sucesso, estando já marcados dois concertos para o mês de novembro de 2021 nos míticos Coliseus dos Recreios de Lisboa e do Porto.


Bárbara Tinoco

Este é o tempo de Bárbara, que já conta com mais de sessenta e dois mil seguidores no Instagram, na sua maioria jovens. As estações de rádio passam frequentemente canções suas que eu ouço com prazer. E, todavia, há algo que me incomoda na canção Eu sei lá:

Eu sei lá, em que dia da semana vamos/ Sei lá, qual é a estação do ano/ Sei lá, talvez nem sequer queira saber/ Eu sei lá, porque dizem que estou louca/ Sei lá, já não sou quem fui sou outra/ Sei lá, pergunta-me amanhã talvez eu saiba responder.
E eu juro, eu prometo e eu faço, e eu rezo/ Mas no fim o que sobra de mim?/ E tu dizes coisas belas, histórias de telenovelas/ Mas no fim tiras mais um pouco de mim/ Então força leva mais um bocado/ Que eu não vou a nenhum lado/ Leva todo o bom que há em mim/ Que eu não fujo, eu prometo, eu perdoo e eu esqueço/ Mas no fim o que sobra de mim?
Mas tu sabes lá, das guerras que eu tenho/ Tu sabes lá, das canções que eu componho/ Tu sabes lá, talvez nem sequer queiras saber/ Mas tu sabes lá, da maneira que te amo/ Tu sabes lá, digo a todos que é engano…

Longe de ousar fazer qualquer tipo de censura à actividade criadora de Bárbara Tinoco, que nem sequer se justifica neste caso, não posso deixar de comentar a natureza do amor que envolve a protagonista numa canção que é bonita por fora, mas que se a olharmos por dentro vemos qualquer coisa que não bate certo, como uma discrepância nos valores considerados adequados para os relacionamentos humanos. Há uma mulher. Diz que ama e perdoa. Não vai a lado nenhum, apesar do seu parceiro estar a contribuir para a desconstrução fatídica do seu eu interior, uma vez que ela é capaz de dar tudo por amor e nada receber em troca. Em suma, ela dá todo o bom que possui e o parceiro vai retirando bocados. O refrão insiste no processo destrutivo da mulher e finaliza com a pergunta crucial: Mas no fim o que sobra de mim?

Olha Bárbara, eu sei lá. O que eu sei é que a violência no namoro e no casamento ainda está muito longe de ter fim. Não sendo um fenómeno implicado directamente pelas canções que ouvimos, também é verdade que Eu sei lá induz em erro e implica um estado de rendição ao inadmissível. Já se percebeu que é uma bonita canção, mas também é preciso implicar o poder de uma lírica na intervenção social, no sentido de alterar essa rota humana tão ameaçada pela violência psicológica. Mais do que fazer perguntas é preciso ter a coragem de dar as respostas. E voltamos sempre ao círculo vicioso e desgastante da natureza do amor. Na verdade, só amar não basta: é preciso amar e ser amado. É preciso cantar bem alto a reciprocidade do amor. E não permitir que alguém leve de nós, mulheres, o bocado que nos resta.

Adília César

domingo, 26 de julho de 2020

E TODAVIA, UM METRO É UM METRO!


De modo que a vida/ É um circo de feras/
E os entretantos/ São as minhas esperas.

Xutos & Pontapés




A educação e a aprendizagem estão sempre em evolução, de acordo com as transformações operadas nas sociedades. Há muitas décadas que os docentes esperam que esse processo evolutivo preencha as necessidades do público-alvo: os alunos e suas famílias. Queremos a promoção do sucesso educativo das crianças e jovens, queremos um país em que o exercício da cidadania activa contrarie a ignorância passiva. E o que quer o Ministério da Educação?

Nunca um futuro ano lectivo foi tão planeado, questionado, badalado. Todos têm opinião, os que estão dentro e os que estão fora da escola, pois, implícita ou explicitamente, com ela se relacionam. A Escola, essa instituição organizadora das sociedades é, ao mesmo tempo, um retrato fiel do nosso valor humano. Entre outros assuntos, muito se tem falado e escrito na distância de segurança anti-pandemia em recinto escolar. Na sua maior parte, os eventos televisivos e despachos governamentais a esse respeito mais parecem sketches humorísticos de fraca qualidade, embora eu preconize que, ainda assim, possam ficar na história da educação como pontos nevrálgicos de uma nova tese matemática – a distância correspondente a um metro-padrão é a distância “possível” correspondente a um metro-padrão. Esta tese, de tão amplo o seu espectro, veio permitir a introdução do corolário “se possível”, uma vez que, medindo-se o metro-padrão clássico ao longo de 100 centímetros clássicos, aquele poderá ser encolhido e esticado de acordo com a possibilidade dos intervenientes na sua relação com os espaços. Ou seja, a sala de aula com 45 ou 50 metros quadrados albergará turmas de 20 a 30 alunos e respectivos professores, todos à distância possível de um metro (que já não é o metro-padrão, é o pseudo-metro-na-medida-do-possível).


Quer dizer, há o metro-padrão anterior à era pandémica e há um outro metro-padrão mais flexível, correspondente à era pandémica propriamente dita. Vejamos algumas pérolas do discurso oficial (Orientações-DGESTE_DGE_DGS-20_21):
(…) I – Medidas Gerais
d) Procurar garantir as condições necessárias para cumprir com as recomendações do distanciamento físico;
II – Organização do Espaço – Educação Pré-Escolar
3. Deve ser maximizado o distanciamento físico entre as crianças quando estão em mesas, sem comprometer o normal funcionamento das atividades pedagógicas.
III – Práticas Pedagógicas – Educação Pré-Escolar
3. Pese embora a recomendação de distanciamento físico, importa não perder de vista a importância das aprendizagens e do desenvolvimento das crianças e a garantia do seu direito de brincar.
IV – Organização Escolar – Ensinos Básico e Secundário
4. c) Sempre que possível, deve garantir-se um distanciamento físico entre os alunos e alunos/docentes de, pelo menos, 1 metro, sem comprometer o normal funcionamento das atividades letivas.
7. Definir e identificar circuitos e procedimentos no interior da escola, que promovam o distanciamento físico, nomeadamente no percurso desde a entrada da escola até à sala de aula e nos acessos aos locais de atendimento e convívio.
8. Evitar a concentração de alunos nos espaços comuns da escola.
V – Código de Conduta
Além do uso da máscara dentro dos recintos escolares, devem ser mantidas as regras de higienização das mãos e etiqueta respiratória, promovendo-se ainda, a maximização do distanciamento físico. (…)


Das orientações depreende-se que o distanciamento físico possível depende da realidade física das salas de aula, ou seja: em salas de maior área e com menor número de alunos, 1 metro é o metro-padrão; em salas com menor área e com maior número de alunos, 1 metro é outra medida qualquer, como por exemplo, meio-metro. É muito curiosa a flexibilização do conceito de distância de segurança anti-pandemia: no início da dita, era de 2 metros; há uns meses, passou a 1metro e 50 centímetros; depois, encolheu para 1 metro; e presentemente, é o metro-possível, ou seja, todos encostadinhos uns aos outros. Caso ainda fossemos, malogradamente, assolados por algumas dúvidas, as declarações do Ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues vieram esclarecer o distanciamento físico correspondente a 1 metro:

- (…) e, obviamente, também o distanciamento, que ficou muito claro que sempre que possível deve ser de um metro e sempre que possível deve ser o mais maximizado possível.
- (…) Os alunos vão caber todos na mesma sala. Não haverá desdobramento de turmas.

O que o Ministro da Educação ainda não percebeu é que o metro-possível vai operacionalizar-se nuns míseros 11 centímetros! Sabemos este dado de fonte segura porque temos estado dentro das salas de aula com os nossos alunos! A inevitabilidade de voltar ao jardim-de-infância e à escola em setembro, tendo em conta as compreensíveis urgências pedagógicas, sociais e económicas, é uma impossibilidade possível, de acordo com as orientações da tutela, uma vez que vai ocorrer um aumento de casos de infecção por Covid-19 devido a um erro primário de planeamento: manter o número de crianças/alunos por grupo/turma em vez de o reduzir. E é a partir deste erro oficial que todas as estruturas intermédias e comunidades educativas tem de trabalhar com vista à organização do próximo ano lectivo, numa tentativa hercúlea de minimização dos estragos que se hão-de fazer sentir e que serão, no processo e no produto, uma responsabilidade colectiva. A saúde pública vai estar na corda bamba e cabe à escola, e principalmente aos educadores/professores de cada grupo/turma, um papel muito ingrato, uma vez que cada um destes docentes é responsável por gerir todas as regras de controlo de infecção, num espaço saturado de crianças/alunos.  Está errado, sabemos que está errado, mas vamos todos obedecer. Afinal, tudo mudou para tudo ficar na mesma. O que querem a DGESTE, a DGE e o ME com a premissa sempre que possível que mais parece quase sempre impossível? Querem que os docentes desenvolvam as suas actividades/aulas e protejam toda a comunidade escolar com as condições de trabalho que as escolas (não) oferecem, responsabilizando-se injustamente pelos fracassos que não podem controlar? Quantos “entretantos” são necessários para a chefia corrigir erros irreversíveis? Sim, a vida é um circo de feras, mas mansas. Ah, que vontade de dar xutos e pontapés nisto tudo.

Adília César

sábado, 11 de julho de 2020

O FUTURO É HOJE



Reinventarmos juntos o mundo que compartilhamos.
António Guterres, 25-06-2020


A frase de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, é um desejo simbólico e universal que vem de um passado remoto, desde que os primeiros povos deram voz às suas reivindicações por um mundo melhor, mais justo e, em pleno século XXI, também mais sustentável.


Giacomo Balla, pintor futurista (1871-1958)

Estamos todos de acordo que a ambição desmedida e arrogante dos humanos tem implicado uma relação injusta, catastrófica e quase unilateral com os recursos naturais. A Natureza tem sido a nossa escrava e poderá ser, em última instância, a nossa perdição. A evolução científica, médica, industrial e bélica assenta numa lógica superlativa e consumista: mais, melhor, vertiginosa. Já estamos a pagar caro pelos nossos sonhos exacerbados de progresso inglório, há muito tempo.

Juntos, habitamos um planeta maravilhoso, esta dádiva redonda de ser azul e verde. Conquistámos territórios, fechámos fronteiras e inventámos a Pátria, com idioma e bandeira. Mas não ficámos por aqui.
Construímos casas e pontes, canalizámos água potável, acendemos lâmpadas, curámos doenças. Mas não ficámos por aqui.
Fomos à lua, lançámos bombas atómicas, clonámos seres vivos. Mas não ficámos por aqui.
Assinámos tratados, abrimos fronteiras, acolhemos refugiados. Mas não ficámos por aqui.
E o que parece nunca deixar de existir é a constante assimetria dos povos de todo o mundo no acesso a direitos fundamentais de sobrevivência da própria espécie: os ricos e os pobres, o desperdício global de recursos e a fome de tudo, o aumento do desemprego e a incapacidade de nos protegermos uns aos outros. A saúde, a educação, a cultura e a sustentabilidade do planeta e de todos os seus habitantes continuam em risco.

Várias pandemias já se abateram sobre o mundo. A Covid-19 é a última, é mais uma. Que aprendemos com as pandemias que acreditámos terem sido vencidas? Quase nada, porque temos ânsia de voltar a sentir essa “doença da normalidade” a que nos habituámos; não vemos que o mundo está em permanente mudança e que tudo o que acontece de bom ou de mau serve para nos dar pistas para salvarmos o futuro. Não é possível continuar a cometer os mesmos erros numa tentativa vã de voltarmos a ter a vida que antes vivíamos, porque isso seria um processo de recriação dos sistemas que fizeram piorar todas as crises. As consequências negativas estão à vista, mesmo que todos os dias nos digam, politicamente, que “a situação está controlada”.

O futuro é hoje, porque o amanhã ainda não existe. É hoje que temos de orquestrar as mudanças necessárias e deixá-las como legado de uma vida digna para os nossos filhos e netos. Viver com a máscara cirúrgica colocada sobre a máscara facial da fatalidade é um desconforto menor comparado com a crise ambiental e económica à escala global. Esta última grande crise, por ser planetária, é tão infecciosa como o novo coronavírus que não distingue nem homens, mulheres ou crianças, nem novos ou velhos, nem ricos ou pobres, nem bons ou maus, e desenfreadamente se abate sobre qualquer um. O vírus invisível e poderoso é a criatura mais justa que existe porque através dos seus dons perniciosos de infecção, doença, morte e consequentes desequilíbrios na vida em sociedade, veio mostrar-nos uma verdade límpida como a água da nascente: afinal, somos todos iguais nos direitos a usufruir e nos deveres a cumprir; somos todos capazes de uma maior justiça na relação com os outros, na esperança, na solidariedade para com os mais vulneráveis. É na sustentabilidade, na inclusão e na igualdade que as “novas” políticas têm que assentar para salvaguardar a Vida nas suas variadas vertentes sociais, económicas, culturais, espirituais: em suma, a Justiça para Todos.

O futuro é hoje, porque amanhã já não estaremos aqui. Enquanto arquitectos da vida sabemos que “nenhuma árvore ou pedra arrancada à natureza nos é restituída” (Siza Vieira) e que qualquer mal que causemos mata uma parcela da nossa humanidade. E se o tempo pandémico durar muito, esse é precisamente o tempo que precisamos para nos empenharmos na construção de um mundo diferente, salvando apenas o que ainda vale a pena. Do pensamento à acção, somos todos responsáveis.

Adília César